pensar

Estou quase lá.

Renato Ferreira 04.01.2016

Há perguntas para as quais não temos ainda respostas. Mais do que isso: para algumas destas questões talvez nunca se chegue a conclusões; será que nunca conseguiremos, de facto, atingir a verdade, restando-nos apenas a consolação de cada vez mais podermos, pelo menos, aproximarmo-nos dela?

Se é verdade que o Universo começou há 13,7 mil milhões de anos com o Big-Bang, a primeira das indagações surge de uma forma natural – o que é que existia antes do Big-Bang? Se o nosso Universo mais não é do que apenas uma espécie de bolha num mar imenso, a hipótese da existência de um multiverso aparece como eficaz. Eficaz mas, lá está, impulsionadora de outras dúvidas. É esse mar finito ou infinito? Se for finito, o que é a fronteira? Se há fronteira, o que há para lá dela? Se o mar for infinito, pela lei das probabilidades, tudo o que pode ser imaginado é real. Ou seja, se o espaço nunca mais acaba, a probabilidade de existir vida para além deste nosso pequeno planeta é de 100% (não tenho bem a certeza do que acabei de escrever, mas resolvi escrever na mesma…). Mais: a ser infinito, existirão outros Renatos Ferreiras iguaizinhos a mim a fazer a mesma coisa do que eu… Eu sei, eu sei, já não nos bastava um a azucrinar-nos a vida com textos destes, há ainda a possibilidade de, noutros universos, outras pessoas (ou outras formas de vida) estarem a ler este texto!

Por falar em formas de vida, como é que objectos inanimados transformaram-se em vida? Se já é estranho que exista algo em vez de não existir nada, fascinante é também que a passagem do tempo tenha permitido que a vida tenha surgido. Tenha sido debaixo de água, na Terra, ou em Marte (sendo que se não foi no Planeta Terra a teoria da panspermia ganha), o facto é que ela surgiu, impulsionada pela força indomável – a de base – que permite que alguma coisa aconteça.

Quando eu falo aqui de vida, não me refiro à minha pessoa e à sua. Nós também somos vida, mas para que nós pudéssemos existir ela, a vida, teve que passar por um processo de evolução enorme. Das primeiras células a que convencionalmente podemos chamar vida até que eu pudesse escrever este texto aqui neste computador, teve que surgir, ao longo do longo caminho, algo que é, para nós, seres humanos, o mais importante: a consciência. Sim, é fácil imaginar um universo em que não houvesse consciência. Apenas existiriam para aqui objectos, quiçá mesmo planetas, água, nuvens, e um etc enorme que não teria esse algo que é fundamental para que tudo ganhe algum sentido – a consciência. O universo quer ver-se a si mesmo, quer espreitar o que ele próprio fez, quer ter o poder de dizer “isto (alguma coisa) existe” ou mesmo o “eu existo”. Para isso fez a consciência.

E para finalizar: depois de existir algo em vez de nada, e depois desse algo ter originado a consciência que repara que há algo, resta-nos perguntar e duvidar acerca do livre-arbítrio… Desde já realço o facto de que é muito mais simples assumirmos que o livre-arbítrio existe. Poupa-nos a uma série de reflexões, complexidades e problemas de vivência intra-humana (ou inter-humanos) que existiriam se se chegasse à conclusão de que afinal não mandamos aqui nada. Eu vivo, indubitavelmente, como se tivesse poder de escolha. Mas terei eu mesmo esse poder? Ora vejamos…

Não fui eu que iniciei o universo. Tenha ele começado com o Big-Bang ou se ele sempre existiu. Não fui eu que coloquei em marcha a evolução que levou a Natureza a construir-me a mim mesmo. Não fui eu que escolhi, agora falando de aspectos mais concretos da nossa vida, a cor dos meus olhos, a minha altura, o dia em que nasci, como fui educado. Não sou eu que escolho o que os outros fazem. Não sou eu que domino o que se passa dentro do meu corpo (ingiro alimentos e bebidas, é um facto, mas o meu corpo, internamente, resolve tudo sem a minha ajuda para conservar a vida).

Agora passemos às partes que normalmente achamos que estão no nosso controlo: a vida do dia-a-dia - as decisões que tomamos, sejam elas escolhermos o que vestir, o que comer, com quem falar, o que ler, o trajeto a tomar na estrada, etc. A partir de que ponto é que somos nós que decidimos? Se formos pela incessante cadeia de acontecimentos de causa-efeito desde que há universo, chegamos à conclusão de que apenas somos testemunhas do que acontece a nós mesmos. Se essa ideia não nos agradar (ou melhor, se essa ideia não corresponder à verdade), temos então que chegar à conclusão de que há um momento na nossa vida em que tomamos as rédeas do que somos e nos acontece. Será lá por volta dos cinco anos que “aterra” em nós a consciência e o livre-arbítrio? É que antes disso eu não me lembro de nada…

Portanto: 1 – como foi possível o surgimento do algo em vez de nada (criação do universo); 2 – como se criou vida a partir desse algo e como foi possível a criação de consciência nessa vida (ter surgido o Renato Ferreira, por exemplo); e 3 – essa consciência tem o poder de alterar efectivamente algum algo (incluindo a ação da pessoa na qual ela existe)?

Estas são as 3 questões que eu gostaria de responder ainda hoje. Mas temo que não vá ser possível.

Dêem-me mais alguns dias para pensar e já vos digo alguma coisa…

 

Estou quase lá.


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