pensar

Matemática é fixe?

Renato Ferreira 04.01.2016

Imaginem que numa aula de literatura os professores só ensinavam Homero. A Ilíada e a Odisseia seriam os únicos livros presentes na bibliografia do programa anual ou semestral da disciplina ou curso. É isso, mas associado à matemática, que acontece nas salas de aula – segundo Edward Frenkel. Este matemático, que escreveu o livro “Amor e Matemática”, que já está disponível em português nas nossas livrarias, é mais um exemplo de divulgador da Ciência (neste caso, da Matemática) que incute o gosto por disciplinas tradicionalmente apelidadas de “chatas”, “difíceis”, quando não de “irrelevantes”, o que é ainda mais grave.

O grande desafio por parte da educação formal, a escola, a sala de aula, deverá passar exactamente por transmitir aos alunos as fronteiras do conhecimento (e a partir daqui, já sou eu a falar). Convém começar do início, mostrando a herança de milhares de anos de acumulação de saber(es)? Claro. Mas o que entusiasma o estudante é saber também o que ainda não foi descoberto. As portas semi-abertas dos contributos atuais dos cientistas, que podem ou não levar-nos a novas descobertas (ou criações) e assim aumentar o conhecimento que temos do mundo que somos e do mundo que nos rodeia.

É sabendo das matérias mais recentes, das dúvidas, dos experimentalismos atuais até, que o novo estudante/investigador poderá pressentir onde e como pode encaixar nesta engrenagem de sabermos cada vez mais sobre qualquer área. Poderá ser isto uma espécie de risco também? Pode. Como? A minha perceção diz-me que é mais confortável para um professor, numa sala de aula, até para consolidar o seu papel de autoridade em determinada disciplina do saber, cingir-se ao que está comprovado. Desse modo os papéis de transmissor e receptor na educação, na escola, mantêm uma certa estabilidade, uma certa rigidez salutar. Será?

Sim, penso que sim. Essa estabilidade trará conforto. Mas na ciência, é isso que queremos? O conforto? A estagnação? O “eu sei e vou transmitir-te a verdade”? Ou será preferível, numa postura de angariador de mais companheiros de viagem nesta aventura de descobrirmos cada vez mais, o professor apontar portais desconhecidos através dos quais o aluno se sinta motivado (encantado até) para desbravar mares nunca dantes navegados?

Caminhemos, pois, com medo mas com coragem, rumo ao desconhecido…

Lirismo? Talvez…

(a propósito de Edward Frenkel, que me levou a escrever este texto, aqui deixo um vídeo com este matemático…)

 

 


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