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Namorar com o mundo 3

Renato Ferreira 04.01.2016

Não conheço o trabalho de muitos filósofos da ciência. Através das minhas “leituras vagabundas” - como Agostinho da Silva gostava de chamar a essas leituras que vamos fazendo sem seguir guião estabelecido por alguém -, cruzei-me apenas, mais regularmente, com o austríaco Karl Popper, que viveu quase todo o século XX. Sempre que leio ou ouço o nome dele, lembro-me da sua defesa da existência de 3 mundos. O mundo 1 e o mundo 2 são os mais fáceis de identificar: o mundo 1 é o mundo das “coisas” – ou objectos físicos (é o hardware do mundo, de certa forma, costumo pensar eu); e o mundo 2 será o mundo das experiências subjectivas – como os processos mentais (o software, portanto).

Quanto ao mundo 3, o próprio Karl Popper admitia ser “uma ideia invulgar e muito difícil, e por isso não devemos querer apreendê-la por completo logo à primeira” (se ele próprio afirmou isto, não é portanto, obviamente, objectivo deste meu texto lançar luz total e final sobre o mundo 3; se servir como aperitivo para futuras leituras e reflexões sobre este tema, já me sentirei satisfeito). O mundo 3 é o mundo dos enunciados em si, dos produtos da mente humana, dos argumentos, das teorias e dos problemas em aberto do conhecimento objetivo.

Popper afirmou que “conquanto tenha origem em nós, o mundo 3 é em grande parte autónomo”, exemplificando dizendo que “muito embora tenhamos dado início à geometria e à aritmética, os problemas e os teoremas terão existido antes de alguém os descobrir, sendo por isso impossível pertencerem ao mundo 2”.

Se, tal como o filósofo vienense defendeu, “não só agimos sobre o mundo 3, como também este reage sobre nós”, eu, enquanto um esforçado (eterno aprendiz) criador de músicas, terei que aprender a relacionar-me melhor com o mundo 3. Popper via-se afastado da ideia de que a arte é auto-expressão ou de que o compositor recebe inspiração (das Musas ou do inconsciente). Em vez disso, “o artista, enquanto cria, recebe da obra ensinamentos constantes”; Popper afirmou que a própria “obra oferece-lhe constantes sugestões, que visam suplantar o projecto inicial do criador”, criador esse que se tiver “humildade e a autocrítica suficientes para atender a tais alvitres e seguir-lhes os ensinamentos”, descobrirá (ou inventará) uma “obra que transcenderá as suas capacidades pessoais”.

Ele acaba a sua autobiografia escrevendo:

“Se eu tiver razão na minha conjetura de que crescemos, e nos tornamos nós mesmos, somente na interacção com o mundo 3, então o facto de podermos todos contribuir para esse mundo, ainda que apenas um pouco, pode reconfortar qualquer pessoa; e em especial alguém que sente que, ao batalhar com as ideias, encontrou mais felicidade do que a que alguma vez podia merecer.”

Lição a tirar: da próxima vez que pegar na minha guitarra, vou tentar namorar com o mundo 3…

Muito obrigado, Karl Popper.

(Nota: poderão encontrar as citações que utilizei neste texto nos livros “Busca Inacabada – Autobiografia Intelectual” e “O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente”, ambos de Karl Popper)

 

 

 


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