viver

Elogio do idiotismo

Renato Ferreira 04.01.2016

Venho aqui fazer queixinhas…

Eu não quero acusar ninguém de nada. Mas tenho que denunciar Byung-Chul Han… Ele chama a Sócrates (o que só sabe que nada sabe) e Descartes (o do cogito ergo sum) de idiotas! Isto não pode passar impune. Achei que deviam saber.

Pronto, dito isto, passemos à explicação.

À partida, é natural a inclinação para preferirmos a inteligência ao idiotismo. Contudo, no livro ‘Psicopolítica’ do sul-coreano que é professor de filosofia em Berlim, Byung-Chul Han, eis que o idiota ganha, por larga margem, ao inteligente.

Neste livro pode ler-se que “inteligência significa escolher entre (inter-legere)”. Assim sendo, o inteligente será aquele que “só pode escolher entre opções dentro do sistema”, que ele “habita o horizontal”, enquanto que “o idiota toca o vertical abandonando o sistema predominante – ou seja, a inteligência”. Quando eu li a parte que diz “o idiotismo constrói espaços livres de silêncio nos quais é possível dizer alguma coisa que mereça realmente ser dita”, exclamei para comigo mesmo, em voz alta: eh, pá…eu quero ser um idiota! (a coisa não correu muito bem, uma vez que eu estava a ler o livro numa esplanada cheia de gente…)

Vou ser claro: se isto é possível, se é sequer mensurável de alguma forma, não faço a mínima ideia. Refiro-me ao ser idiota segundo esta visão filosófica. Criar será sem dúvida o melhor caminho, mas olhemos para alguns exemplos que mostrarão a dificuldade da criação constante.

Nascemos e, quando atingimos uma determinada idade, temos que fazer escolhas entre o que já há, em vez de criarmos tudo para nossa própria fruição posterior. Futebol: não é fácil criar um clube para depois sermos adeptos dele…mais fácil é escolhermos um já existente… Religião: a não ser que nos consideremos um ser iluminado, torna-se difícil… Política: ok, já é mais fácil criar um partido, mas mesmo assim…

Contudo, apesar das dificuldades, e dentro do possível, eu quero ser um idiota… Não digo um idiota do tamanho dos dois gigantes referidos no início. Quem sou eu para almejar tamanha façanha para a posteridade. Mas pelo menos, um idiota pequeno – isto do idiotismo também terá níveis, certamente.

 

Obrigado, Byung-Chul Han. 


Relacionados

Eureka!

Às sextas, às seis...Renato Ferreira...

Continuar a ler Renato Ferreira   20.07.2018

Viagem sem fins

Nada de fins, apenas de inícios e de esperança que a próxima história será...

Continuar a ler Ana Marinho da Silva   25.01.2016

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário