aprender

Sobre a preguiça

Renato Ferreira 04.01.2016

Ninguém gosta de ser chamado de preguiçoso. No máximo, admitimos que procrastinamos um pouco. Albert Cossery, contudo, parece não se ter importado nada com este rótulo. Foi alguém que se dedicou à preguiça…a vida toda. Mas não uma preguiça qualquer, dizia ele.

Albert Cossery, nascido no Cairo em 1913 e que aos 32 anos foi para Paris onde viveu quase sempre no mesmo quarto de hotel – no bairro Saint-Germain-des-Prés -, escreveu oito livros ao longo da sua vida, tendo falecido em 2008. Dizia que o fazer nada era simplesmente tempo de reflexão; quanto mais preguiçosos, mais tempo temos para nos dedicarmos a essa reflexão.

Só descobri Albert Cossery depois da sua morte. Em 2008, portanto. Lembro-me de ler algures, na altura, que alguém considerou que ele tinha sido mais livre do que Fernando Pessoa – foi chamariz suficiente para que eu quisesse descobrir mais sobre ele. Não vou entrar aqui em opiniões sobre o ranking das pessoas que gozaram de maior liberdade neste mundo. Não é aí que quero chegar.

Quero apenas, lembrando a frase “escolha um trabalho que você ame e não terá de trabalhar um único dia de sua vida” (Confúcio), dizer que o trabalho, quando feito com entusiasmo, com gosto, deixa de ser visto com essa carga pesada que normalmente a palavra “trabalho” carrega consigo.

Atenção: quem está a escrever este texto nem sempre consegue arranjar “trabalho” que ame. Simplesmente tenho essa meta: procurar sempre trabalho que não considere “trabalho” mas sim prazer. Nem sempre conseguimos juntar o útil ao agradável, mas o objectivo será esse.

O próprio Albert Cossery trabalhou. É certo que oito livros numa vida de 94 anos até pode não ser considerado muito. Mas foi a sua produção. Aliás, se ele não tivesse produzido esses livros, provavelmente eu, e se calhar todos nós, nunca teríamos ouvido falar dele. Estou a querer dizer que a escrita dele – o seu trabalho – vivia da reflexão que ele tirava da sua preguiça. Ou seja, se calhar estou a tentar dizer que a preguiça dele era o seu trabalho…

 

 Acrescento que… Bem, não vou acrescentar mais nada. É que está a dar-me cá uma preguiça… Vou ali refletir um pouco mais e volto já. Voltemos ao trabalho!


Relacionados

Bring back our girls

A periculosidade da demonização realizada durante a transferência de poder para o...

Continuar a ler Hélia Saraiva   12.04.2017

Correntes D'Escritas

Durante cinco dias, reuniu-se o que melhor se produz nesta área das artes e...

Continuar a ler Rita Silva   26.02.2017

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário