viver

A Neve e a Julia

Renato Ferreira 04.01.2016

A primeira série de TV dramática que segui mais atentamente foi o ‘Party of Five’ (Adultos à Força) na década de 90 do século passado. Guardo ainda – como uma espécie de “cicatriz cerebral” (expressão que encontrei no livro “O Mundo Ardente” de Siri Hustvedt) - alguns dilemas com os quais algumas personagens viviam nessa história. A família dos cinco (não confundir com os cinco da Enyd Blyton) era encabeçada pelo ator Matthew Fox – que mais recentemente pudemos ver em ‘Lost’ – e tinha em Neve Campbell o principal trunfo para me pôr a mim a ver a série.

A primeira série de TV de comédia que devorei foi o ‘Seinfeld’ – e aqui ria-me com todos mas em especial com o ‘Kramer’, embora para este texto faça mais sentido relembrar-vos da Julia Louis-Dreyfus (a Elaine).

Passados alguns anos, eis que a dupla Neve Campbell / Julia Louis-Dreyfus volta a encontrar-me. Ou melhor, os encontros ainda não se deram, mas espero ansiosamente por eles. Novamente a Neve numa série dramática e a Julia numa série de comédia. Do que é que falo? A Neve está já garantida para a quarta temporada do ‘House of Cards’, por um lado, e vou começar a ver brevemente a ‘Veep’ com a Julia, por outro.

Para alguém que, como eu, (tenta) investiga(r) a relação entre os jornalistas e os políticos, é (pelo menos no meu caso é) um prazer encontrar estas amigas em séries que, de certa forma, contribuem para o pensar esta relação. A relação jornalistas-políticos, dentro da realidade que é o jornalismo político, tem tudo para dar certo: cada uma das partes precisa da outra. O jornalista precisa de noticiar o que se passa no mundo da política e nada melhor do que ter perto de si aqueles que mais directamente fazem esse mundo. Os políticos, se bem que têm formas de comunicar directamente para (e com) os cidadãos, ainda chegam a estes principalmente com a intermediação do jornalismo.

 Porque é que, então, às vezes dá impressão que esta relação não é assim tão pacífica? A desconfiança mútua entre os dois lados por vezes transparece. Percepciona-se. Talvez tenha que ser assim. Talvez seja dessa aparente luta que os frutos aparecem.

Não quero com este texto estabelecer qualquer tipo de certezas sobre aquilo que escrevo. Tenho quase a certeza de que não tenho certezas…e só não tenho a certeza disto porque não tenho certezas… Interessa-me antes o simplesmente levantar algumas questões que podem ser importantes. O questionar, o debater e com isso arranjarmos, se possível, de uma forma construtiva e incessante (porque nunca fechada por consenso ou unanimidade), formas de vivermos numa democracia que nos satisfaça.

Para mim acho que é importante não se olhar o cidadão estritamente nem como consumidor (de media) nem como eleitor (de políticos), mas sim como um cidadão que é ambas as coisas sem aí se esgotar. Deve ser visto como alguém que pode e deve ser trazido mais a jogo, sempre que possível, para se sentir ainda mais co-responsável pelo país do qual faz parte, ajudando à sua criação também, politicamente falando. Todas as ideias para que isto aconteça são para mim bem-vindas, apesar de termos que ter cuidado, claro, com o experimentalismo que terá que ser feito para implementar algumas dessas ideias. Os orçamentos participativos são uma forma de o cidadão fazer acontecer - e já são uma realidade em alguns locais. Por outro lado, e dando agora um exemplo do que se podia fazer mas ainda não se faz, a deliberação cívica feita por uma espécie de “Câmara de Cidadãos” (ideia encontrada, por exemplo, no livro “Reinventar a Democracia” de Manuel Arriaga), em que seria uma câmara legislativa separada constituída por cidadãos a avaliar as medidas aprovadas pelos representantes eleitos, parece uma ideia estranha e arrojada demais para que se experimente, mas é uma ideia que tem que ser posta em cima da mesa com seriedade, na minha opinião. Não defendo a ideia em si, para já (teria que a estudar melhor para isso), mas defendo sim a colocação de ideias deste género no debate público.

Será que a Neve e a Julia irão solucionar os problemas que a democracia e a vida sempre terão? É claro que não. Mas poderão certamente participar no tal debate incessante que temos que fazer. Sabendo que a ficção encosta-se - às vezes muito às vezes pouco - à realidade, ela (a ficção) pode sempre ajudar a dar-nos pistas para que construamos a segunda (a realidade). E vice-versa…

  


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