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Opinião no jornalismo

Duarte Pernes 11.01.2016

Parte do meu percurso académico foi passado em Valência, na Universidade Cardenal Herrera. Quando, por casualidade, contava aos locais que comigo se iam cruzando que estudava jornalismo e que seria por aí que tencionava fazer seguir o meu percurso profissional, era-me feita invariável e prontamente a seguinte questão: “periodismo de izquierdas o de derechas?”

Não fiquei, de todo, surpreendido pelo conteúdo que a interrogação encerrava. Qualquer pessoa atenta ao fenómeno jornalístico saberá que, no país vizinho, muitos dos media tendem a seguir, explicitamente, uma linha editorial próxima de um determinado quadrante, seja ele político, religioso ou até desportivo. Aliás, esta não é uma singularidade de Espanha e, ainda que em menor grau, verifica-se também em Portugal. O que, de facto, me chamou a atenção foi a ideia de que existe, à partida, um filtro que define (mesmo que não de uma maneira rígida, que exclua ou privilegie necessariamente alguém em função das suas ideias) uma tipologia de meios nos quais os jovens jornalistas se enquadram e, sobretudo, a naturalidade com que esta realidade é encarada pela população em geral.

Ora, ao assumir preferências e convicções, estarão os meios jornalísticos e os respetivos profissionais que os integram, a perder independência e credibilidade (predicados que deviam constituir os seus sustentáculos basilares)? Por outro lado, não será isso uma assunção plena de liberdade e, em simultâneo, o reconhecimento aberto da condição social do jornalista, com tudo o que tal implica?

Estas duas perguntas dariam, certamente, o mote para um frutuoso e extenso debate. Contudo, o ponto que importa talvez realçar vai direto a uma ideia que Ricardo Jorge Pinto, jornalista, professor universitário e «pai» deste espaço, me transmitiu em várias das suas aulas: os «consumidores mediáticos» procuram, cada vez com maior frequência, peças de informação marcadamente interpretativas e analíticas – o que, por si só, não significa um tomar partido ou um juízo de valor do jornalista sobre uma dada matéria. Mas mais do que isso, eles tendem a ouvir ou ler opiniões que vão ao encontro daquilo que, aprioristicamente, sentem e pensam. Aqui sim, há uma clara predileção pelo opinion-making em forma de texto noticioso.  

Não será, portanto, à toa que várias das cadeiras do curso de jornalismo da universidade que frequentei em Espanha (onde, devo acrescentar, aprendi muitíssimo) estejam orientadas para o campo do discurso opinativo. Uma questão cultural, sem dúvida, mas também uma procura de adaptação à contemporaneidade. As vantagens e desvantagens, os riscos e dividendos que daqui se poderão colher valeriam outra profunda discussão.


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