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A política e os jovens

Duarte Pernes 11.01.2016

Stephen Coleman, professor de Comunicação Política na Universidade de Leeds, publicou no ano de 2008, um artigo científico intitulado «Como as democracias se têm desinteressado dos jovens» (How democracies have disengaged from young people). Nele, o autor debruçou-se sobre um estudo de caso efetuado que, segundo sustenta o próprio, reflete o afastamento do modus operandi político em relação àquilo que os «novos cidadãos» têm, hoje, como aspetos fundamentais da interação social.  

O referido estudo traça um paralelismo entre os jovens telespectadores do Big Brother e a sua ação enquanto votantes nas eleições do Reino Unido de 2005. Deste modo, foi constituído um painel de cerca de duas centenas de indivíduos, com características similares às do público do referido reality show: todos eles eram espectadores do programa, sendo que, maioritariamente, se encontravam ainda em idade juvenil e pertenciam ao sexo feminino.

O autor justifica a escolha do Big Brother pelo seu cariz popular e interativo, funcionando como elemento paradigmático de oposição à comunicação política contemporânea. Segundo Coleman, o Big Brother comtempla fatores que, em abstrato, o campo político ambiciona trazer para o seu universo. Dois deles são precisamente o discurso popular, que prende os que o ouvem, e a interatividade. Ou seja, a possibilidade dos indivíduos terem uma intervenção mais consistente e participativa. No fundo, trata-se de fazer sentir aos cidadãos a sua influência nos processos decisórios.   

Stephen Coleman chega à conclusão de que os jovens passam a julgar os políticos na exata medida em que avaliam os participantes do programa. A descredibilização dos sujeitos políticos aos olhos da sociedade faz com que estes sejam escrutinados sobretudo pela sua aparência física, e pela forma convincente e arguta com que expõem os seus discursos, e menos pelas suas ideias. Aquilo que passa a estar em jogo é assim a sua seriedade e autenticidade, ou aparente autenticidade.

Desta forma, fica-se praticamente reduzido a uma representação de genuinidade por parte dos políticos, tal e qual acontece no Big Brother com os concorrentes. Não basta apregoar honestidade, é preciso demonstrá-la, ainda que essa seja uma demonstração ilusória. O lado íntimo e pessoal dos intervenientes da política torna-se num aspeto fundamental e é levado em conta pelos jovens votantes na hora da decisão eleitoral. Em suma, para o autor, cabe às personagens políticas reenquadrarem os seus procedimentos de forma a agradar aos seus eleitores, quais publicitários que procuram persuadir o seu público-alvo.

Não se poderá, apesar de tudo, pensar que esta teatralização em torno da atividade política seja uma realidade dos novos tempos. Na verdade, ela teve o seu início nos Estados Unidos, no princípio dos anos oitenta, com a primeira eleição de Ronald Reagan para a Casa Branca. Reagan e a sua assessoria perceberam a importância de apresentar uma imagem cuidada e uma narrativa televisiva convincente e apelativa. O passado que o então candidato tinha tido como ator de cinema, facilitou sobremaneira esta tarefa.   

O artigo de Coleman esboça, porém, um quadro algo assustador sobre o presente e o futuro, não só da área política, como do exercício das idiossincrasias democráticas por parte dos mais novos. O que fica sugerido pelo artigo significa, forçosamente, o esvaziamento do verdadeiro debate de ideias, para além de quase eximir os jovens dos seus deveres de cidadania. Como resultado, haverá uma subalternização das convicções políticas em favor de uma espetacularidade mediática, com certeza rica em propaganda e acontecimentos inesperados, mas vazia de qualquer conteúdo ideológico e de discussão.

Ao mesmo tempo, a exposição da privacidade dos políticos – sugerida como forma de corresponder a uma alegada propensão voyeurista das pessoas – tem um lado que corre o risco de se tornar pernicioso, podendo abrir caminho a uma perigosa inclinação, que redunde no populismo e na demagogia. O que importa destrinçar é a fronteira entre a vida pública dos políticos, que deve ser transparente, e a sua intimidade cuja preservação é indispensável. Uma linha de separação ténue e que, por isso mesmo, requer um tratamento cuidado por parte de políticos e meios de comunicação social. O ajustamento aos hábitos dos jovens cidadãos, não implica a quebra de valores fundamentais.


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