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Jornalismo para todos?

Duarte Pernes 11.01.2016

No meu último artigo detive-me na questão do acesso à Internet e, em especial, sobre as reais possibilidades de acessibilidade à informação nela contida e as condições em que esta ocorre. Fi-lo abreviadamente e partindo de um tópico de análise lato, olhando a uma amostra informativa e social vasta. De um ponto de vista mais centrado no universo jornalístico, é possível tecer-se uma reflexão idêntica e complementar.

Como referi no texto dedicado ao digital divide, a infoexclusão não se dá apenas quando, por falta de meios tecnológicos, um indivíduo não consegue aceder à Internet. Essa é uma visão extremamente simples e redutora de um problema tão mais amplo e complexo. De resto, no primeiro parágrafo desse mesmo artigo, salvaguardei a existência de websites de jornais cujo acesso aos conteúdos é pago. Ou, pelo menos, o acesso a alguns desses conteúdos necessita de uma subscrição que é paga e que, portanto, não difere economicamente da realidade vivida nos jornais impressos.

Logo aqui, é criada (mais) uma barreira evidente entre internautas – os que podem e estão dispostos a pagar e os que não podem e não o fazem. Esta é uma ideia que só não é ainda mais explícita porque, de facto, permanecem ainda alguns espaços digitais de informação jornalística em que o acesso é gratuito, pelo que não será correta uma abordagem singular do fenómeno em si. No entanto, não é nada descabido pensar que, num futuro pouco longínquo, haverá uma uniformização geral nos jornais online que obrigará, literalmente, os utilizadores virtuais a terem de gastar dinheiro para se informarem.

Sobre isto, poder-se-á sempre alegar que ficará aberto um vácuo, perigosamente colmatado por fenómenos de informação não jornalística, e que o jornalismo, na sua verdadeira aceção ética e deontológica, perderá amplitude. O resultado será o de uma maior permeabilidade das pessoas a matérias noticiosas não verificáveis e, amiúde, enviesadas e manipuladas. Exemplos disto são as recentes notícias que davam conta da entrada massiva de militantes do Estado Islâmico no continente europeu, sob a capa de refugiados, ou da rejeição do auxílio da Cruz Vermelha por parte dos referidos refugiados. Ambas as informações foram provenientes de órgãos não jornalísticos.

Ao invés, o desmentido e sensibilização do público para as inverdades que rapidamente se alastraram pelas redes sociais, ocorreram muito por obra da ação jornalística – sobretudo daquela que permanece acessível e que é grátis.

Vem, pois, a propósito uma alusão ao pensamento do jornalista e professor universitário catalão Josep Maria Casasús, que afirmou que «na era digital, a ética é a única razão de ser do jornalismo». Aliás, a ética é a única razão de ser do jornalismo, principalmente na era digital.  

Por outro lado, é compreensível o facto de que o campo jornalístico precisa de angariar receitas que garantam a sua vitalidade, assim como a viabilidade do exercício das funções dos seus profissionais. É certo que, para tal, não é forçosa a contribuição monetária dos informados. A inserção de entidades jornalísticas em grandes oligopólios mediáticos e a chegada da publicidade garantiram, e continuam a garantir, a entrada de verbas importantes para a sua subsistência.

Não é, porém, menos preocupante e debatível a ideia de que a excessiva dependência do jornalismo de investimento externo – seja do mercado publicitário, seja de «mecenas» associados a grupos económicos – é uma série ameaça aos pressupostos de independência e liberdade que devem nortear a sua ação. Nesse sentido, continuar a ter no público, que será sempre parte umbilicalmente integrante da produção jornalística, um dos sustentáculos financeiros (tal como acontece nos meios impressos) seria mais confortável, e porventura mais seguro.

Um texto do opinion maker Daniel Oliveira, publicado na sua página do Facebook em maio de 2014 – quando o Expresso (jornal para onde escreve) limitou o acesso aos artigos de opinião online aos utilizadores registados –, sintetiza e espelha bem a encruzilhada vivida, atualmente, no âmbito do jornalismo. Em baixo, seguem algumas passagens:

(…) Não vos escondo sentimentos contraditórios. Jornalistas e colunistas escrevem para serem lidos. Para serem lidos pelo máximo de pessoas. Em tempos difíceis, custa-me muito saber que há quem leia e quem não possa acompanhar este processo.

(…) Já escrevi várias vezes sobre o assunto: ou os jornais encontram uma forma de garantir a sua sustentabilidade financeira ou teremos de esquecer a imprensa livre. Tentarei, com o esforço que me conhecem, contribuir para que tal seja possível. Muito excecionalmente, é possível que os meus textos venham a estar abertos à leitura de todos. Mas a regra será a que era, quando comecei a escrever nos jornais: têm os seus leitores, que contribuem para a sua sustentabilidade.

Não há comunicação social independente se não for sobretudo paga por quem a lê. Pelo menos, no que a mim diz respeito, estou seguro que prefiro depender financeiramente dos leitores do que de anunciantes e patrocinadores. Não é difícil explicar porquê. Bom seria que esta inevitável e necessária mudança acontecesse em dias mais abonados.

No suporte digital como no impresso, há lógicas que não se alteram e debates que permanecem atuais.


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