viver

Time Letter

Liliana Machado 12.01.2016

Não começo esta missiva com cumprimentos fingidos ou saloios. Vou direta ao assunto, tal como me ensinaste a ser na vida: direta, rápida e veloz.

 

Não gires tão depressa. Dá-me um instante. Deixa-me descansar. Ganhar fôlego para mais uma rodada. Como aprendeste a voar? Quem te ensinou a andar em alta velocidade?

 

Tic-tac, tic-tac… Silêncio. Não te quero ouvir mais.

 

Avanças a um ritmo tão alucinante que nem dou por ti. O espelho deixou de ser meu, não o reconheço, já não grita beleza, nem confidencia estatuto. Desprezas os sonhos, atacas o espaço e roubas os dias para a luta. És desleal, porque num dia achamos que és eterno e no outro já não te temos. Traiçoeiro. Vais pairando sobre a vida, espiando os pecados alheios, castigando a existência.

 

Tic-tac, tic-tac… Silêncio. Não te quero ouvir mais.

 

Levas na brisa os olhos azuis do meu presente, que se tornam no meu passado por teu capricho. Enfeitas o rosto de marcas, algumas feias e terríveis. Mas quero que saibas que, mesmo assim, não vences. A minha memória é resistente ao teu avanço. Retém a beleza dos dias que foram. Os dias com horas de amor; de gestos carregados de carinho; segundos, instantes de sorrisos em tardes solarengas tão lentas como foi a infância.

 

 

Tic-tac, tic-tac… Silêncio. Não te quero ouvir mais.

 

Porque não aprendes o slow motion? Ensina esta “dança” lenta aos teus ponteiros. Imagina como seria belo o dia não ter horas e durar lentamente: perder-se nas folhas do outono; nas ondas do mar; nos grãos de areia; nas risadas lançadas no parque; nos abraços entre amigos; nos beijos que se trocam ao luar…

 

Porque não te delongas na vida e insistes em correr para a morte? Porquê?

 

Termino esta carta com uma única despedida:

Ah… Tempo! Maldito. Teimoso. Arrogante. Não me vences na memória.

 

 


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