viver

Podia ter sido astronauta

 16.01.2016

 

Serve este texto para abordar um assunto deveras importante e que ainda constitui um tabu. Sem qualquer tipo de rodeios, vamos lá a isto: toda a gente tem problemas de identidade causados pelo seu segundo nome. Não tenho comigo nenhum estudo que o comprove, nem tampouco procurei. Mas certamente existe algum suficientemente credível que sustente esta teoria e outros que a refutem com igual legitimidade. Porque a ciência é assim. Prova tudo e mais alguma coisa. Os estudos saem quase por encomenda, servindo a vontade de cada freguês.

Com o tempo, uma pessoa acostuma-se ao seu segundo nome, tal como nos habituamos às filas de trânsito na Ponte do Freixo, mas nem por isso essa resignação é positiva. Os segundos nomes deviam ser abolidos. Não têm qualquer serventia e quase sempre combinam mal com o primeiro. Os segundos nomes só servem para as mães o usarem como forma de nos achincalhar quando estão irritadas. Basicamente, quando alguém te chama pelo primeiro e segundo nome, isso só pode significar duas coisas: fizeste asneira da grossa ou estás num hospital. Muitas das vezes, as duas premissas são acumuláveis, principalmente se fores um adolescente a brincar à emancipação em Lloret del Mar.

"André Manuel Correia consultório 3, André Manuel Correia consultório 3", repete uma voz feminina no altifalante. E eu lá me levanto, apressado, sem olhar para ninguém. Uma vez, quando tinha seis ou sete anos, lá entrei eu no consultório 3, 4 ou 5, com a minha mãe ao lado. Sentamo-nos. O médico perguntou: “Então o que se passa, meu traquina?” Eu apenas respondi: “Não sou traquina e não quero ser Manuel. E também me dói muito a garganta”. O médico riu-se e disse-me que, quando fosse grande, podia mudar o meu nome.

Quando sai do consultório, de mão dada com a minha mãe, perguntei-lhe: “Mãe, quando é que vou ser grande?” Ela julgou ter percebido o objetivo da minha questão. “Para poderes trocar de nome, não é?”

“Não, para poder ser astronauta”, respondi eu. Nunca cheguei a trocar de nome, nunca cheguei a pisar o Planeta dos Dinossauros que descobri secretamente durante a infância. Era tão bom ser como o astronauta canadiano Chris Hadfield e poder tocar guitarra a bordo da Estação Espacial Internacional, enquanto dava a volta ao mundo dezasseis vezes por dia. Mas a gravidade obriga-nos a ter constantemente os pés no chão e com o tempo percebemos que os nomes nada dizem a nosso respeito.

Manuel é o primeiro nome do meu pai. Não tem segundo nome. Talvez o meu pai já tenha nascido grande. Acho que o meu pai podia ter sido astronauta, se quisesse. Porque os pais nascem e morrem grandes. Os pais trazem-nos sempre mundos novos.

 

 

André Manuel Correia

 


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