viver

O que restou

Gabriela Cunha 18.01.2016

A morte chateia-me profundamente.

Aliás, como tudo o que é demasiado definitivo ou irreversível. Faz-me relembrar o Mark, personagem do filme The Sessions, que se encontrava permanentemente imobilizado e dependente de um ventilador de pressão negativa. Isto porque sempre que ele tinha um surto de comichão insuportável, não conseguia coçar-se. A morte é a minha comichão figurada. A minha eterna ponta solta. Teima em invadir-me o pensamento, desobedecendo, sucessivamente, à minha ordem de retirada.

Há dias, deparei-me com o seguinte bilhete: "Para beberes um 'copo'"(Verão de 2011), acompanhado de uma qualquer quantia monetária.

Foi, possivelmente, o último que o meu avô me escreveu.

Fez-me pensar, uma vez mais, no quão efémera é a vida. Até a tinta de uma simples caneta BIC, ou um vulgarizado post-it lhe sobrevivem. São o que restou.

Mark desenvolve, eventualmente, uma técnica de meditação que lhe permite abstrair-se da sua desesperante coceira, pelo menos até que alguém apareça para o auxiliar. Já eu duvido seriamente que algum dia venha a conseguir fazê-lo.

 

Nota- Eu não gosto de bebidas alcoólicas. O meu avô sabia.

 

 


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