viver

A infância dos 90

Ana Marinho da Silva 18.01.2016

Antes de lerem, um breve aviso: Cuidado, este artigo é extremamente nostálgico e pode ferir as pessoas mais sensíveis.

Qual o tema a ser abordado? A infância.

Quem nunca teve saudades de voltar atrás no tempo? Eu tenho, praticamente todos os dias. Parece que ainda foi ontem que eu e os meus colegas da primária fazíamos competições de pinball, no único computador da sala, antes da professora chegar. Ou que recebia e enviava papeizinhos a meio da aula a perguntar se queriam brincar comigo ou se partilhavam os chocolates. Claro que estas questões eram acompanhadas com dois quadros excecionalmente bem desenhados com um Sim e um Não.

Como se costuma dizer, sou uma “90s kid” e não me poderia orgulhar mais disso. Muitas pessoas dizem que somos a última geração decente, constituída de meninos e meninas trabalhadores e que sonhavam mudar o mundo. Neste artigo falo dessa infância, juntando o início dos anos 2000. Acreditem, se pudesse voltar atrás no tempo, faria tudo exatamente igual.

Recordo-me perfeitamente da quantidade de folhas que eu gastei para fazer dezenas de “quantos-queres?” e das mãos cheias de giz quando ia ao quadro resolver um exercício. Adorava ligar a televisão enorme da sala para por o braço perto, testando assim a eletricidade estática, ficando com os pelos em pé. E por falar em televisão… quantas vezes acordei super cedo ao fim de semana para ver os desenhos animados e quantas birras fiz eu para comer a sopa enquanto via o Noddy. Acreditava que era possível fazer um “Kamehame-ha” e achava que o Goku era o mais forte do mundo, lembro-me de ver o meu irmão a brincar com a coleção infindável dos bonecos Dragon Ball e apesar de gostar, preferia brincar com a minha coleção (também interminável) de Barbies.

 

Lembro-me de pedir à minha mãe para rebobinar as cassetes de filmes como o Toy Story, o Denver – o último dinossauro, a Branca de Neve, a Gata Borralheira (ou Cinderela, como preferirem), a Bela Adormecida, A Pequena Sereia, o Aladino, a Dama e o Vagabundo, os 101 Dálmatas, o Spirit, o Pinóquio, a Bela e o Monstro, o Peter Pan, a Heidi e o Marco, … Certo, acho que perceberam que era um conjunto de dezenas de cassetes.
Chorava sempre que via o Dumbo (na cena em que ele é embalado pela sua mãe quando ela está presa) e o Rei Leão (na cena em que o Mufasa morre – mas não vamos aprofundar muito, pois ainda hoje choro).

Quando davam aos fins de semana os filmes na RTP1, na SIC e na TVI como o Garfield, o Feiticeiro de Oz ou o Babe – o porquinho trapalhão, ficava sentada no sofá agarrada à TV e quando estava muito aflita para ir à casa de banho, esperava que fosse para intervalo.

Os filmes parecem muitos, mas os desenhos animados batiam recordes. Apesar de dar o Disney Kids na SIC, os bonecos da manhã na TVI e o Zig Zag na RTP2, haviam dois canais que não substituía por nada: o Panda e o Disney Channel. No entanto, eu não tinha este segundo e só via quando ia para casa de familiares e amigos ou quando era canal aberto.

O Panda foi a minha grande companhia de desenhos animados e fico triste por saber que já não transmite a bonecada da altura, que, na minha opinião, foi a melhor de sempre. Não digo que hoje não existam bons desenhos, mas são em menor quantidade.

Cantava a música do Dartacão (e dos 3 ‘Moscãoteiros’) vezes sem conta “Era uma vez os três, os famosos moscãoteiros, do pequeno dartacão, são bons companheiros”. Passava a vida a dizer “Em nome da Lua, vou castigar-te” porque as Navegantes da lua foram o meu desenho animado preferido. Pedia à minha mãe o cabelo igual ao da Pipi das meias altas. Sonhava em comer os dorayakis do Doraemon, mas isso nunca aconteceu. Tinha um peluche dos Hamtaro, que eram dos bonecos mais fofinhos. Tinha um dos Ursinhos carinhosos, cheirava a morango (e ainda hoje cheira). Acreditava que podia ter visitas de estudo como as da Carrinha Mágica. Tinha o quarto das Três Irmãs (a Ana que tinha lacinho azul, o da a Teresa era cor de rosa e o da Helena era verde). Tinha um alarme para por na porta do meu quarto das Espias e sempre que alguém abria ele apitava.

São imensos, mas não nos podemos esquecer dos atos heroicos dos Motoratos de Marte, do mau comportamento que nos fazia ria do Schi chan, das histórias do Rato do campo e Rato da cidade e do sítio do picapau amarelo, das aventuras do Hucleberry Finn, do Digimon e do Pokémon, das lições da Rua Sésamo e dos Teletubbies, das guerras do Yu-gi-oh e do Beyblade, da fofura dos Smurfs ou dos desenhos animados mudos como Pantera cor de rosa e Tom & Jerry . Nunca esquecendo o Inspetor Gadget, as Tartarugas ninja, as Powerpuff girls, os Smurfs, o Jimbo, o Piu-piu (Tweety), os Looney tunes e o Furby.

E é claro, tínhamos os jogos. Lembro-me de jogar Dragonball e Sonic na Sega, Pokémon, Street Fighter, Mortal Kombat, Kirby’s Adventure e Aventuras do Tintim no Gameboy, do Tetris, do Minesweeper, do Tamagotchi (o meu era cor de rosa), do Mastermind, do Monopólio, para o computador tínhamos o Hugo, a Tomb Raider, o Crazy Taxi e o Star Wars,  do “pega-peixes” (onde os peixes andavam à volta enquanto abriam e fechavam a boca e nós tínhamos um cana de pesca com um íman que os apanhava) ou então os hipopótamos comilões, o 4 em linha, os puzzles de mil peças, o cubo mágico, … A grande tecnologia da época e que me deixa sempre com um enorme sorriso na cara quando relembro.

Fora a bonecada (em todos os aspetos), lembro-me de fazer compras fictícias com as minhas amigas, pagando com moedas de chocolate e de pedir à minha mãe cigarros de chocolate, como éramos inocentes ao achar piada a isso, mas a verdade é que eram muito bons. Ainda tenho guardado um estojo cheio de canetas com cheiro a frutas e muitos livros de pintar, pois a minha avó trazia-me sempre um quando vinha cá a casa.
Recordo-me das tendas que fazia com lençóis na sala. Era tão divertido, mas dava um trabalho enorme à minha mãe que prendia os lençóis aos sofás com molas. Os meus pais sempre me fizeram as vontades todas e nunca me faltou nada. É graças a eles que devo a infância de sonho que tive.

Lembro-me também de o meu irmão pedir aos meus pais os pacotes de batatas fritas, de chocolates e afins, da Matutano, do Bollycao ou da Kinder, só para ter direito aos brindes como tazos, tatuagens ou mini brinquedos e eu, comia tudo (por isso é que ele sempre foi um palito e eu uma bola de berlim), dos cromos da Bandai que ele colecionava que pareciam nunca mais acabar, das cadernetas que ele preenchia do Pokémon, das nossas competições com as cartas yu gi oh e com os beyblades. De brincarmos juntos com os pega-monstros, os legos, o barco da Playmobil e com o helicóptero do action man.  De tentarmos encontrar o Wally e ele encontrava, praticamente sempre, primeiro que eu. Comíamos imensos sugos. Víamos juntos o Batatoon, o Neco e a escovinha de dentes e ambos eramos sócios da Rik e Rok.

Os anos 90 proporcionaram-nos uma infância feliz, com muitas descobertas, muitos avanços tecnológicos, muitos desenhos animados. Levarei sempre os Patinhos, o Topo Gigio, os livros da Anita e as músicas da Carochinha no coração, assim como as brincadeiras do macaquinho chinês, do quarto escuro, da “pim-pu-neta”, do “olhós namorados, primos e casados”, do com quem te vais casar “loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia, capitão” e muitas, muitas mais coisas.

Só me falta mesmo falar das músicas desta década, mas isso terá de ficar para depois, pois merece um artigo dedicado apenas a essa temática.


Relacionados

S.O.S.Direitos Humanos

As múltiplas barreiras cooperação para o desenvolvimento, nomeadamente as...

Continuar a ler Hélia Saraiva   12.07.2018

A Europa discute-se

Talvez o erro maior do projeto europeu seja considerar que tudo é legítimo é...

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   25.03.2017

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário