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Dia de Maratona

Ana Marinho da Silva 18.01.2016

Hoje foi dia de maratona. As ruas de Matosinhos ficaram cortadas bastante cedo de manhã e arranjar lugar foi a típica dor de cabeça do costume (é tão chato não encontrar o raio de um espacinho minimamente perto do local onde pretendemos ir; quero dizer, Tu que estás aí em cima, sabes perfeitamente que merecemos um estacionamento digno, pois somos corredores e vamos para a maratona do Porto – não vou mentir, eu não fui fazer maratona nenhuma, mas a minha família corre, portanto por eles podias ter-nos feito esse favor). Depois de deixar o carro a uns gentis quilómetros, chegámos ao queimódromo.

O aroma a suor pairava no ar, as filas para as casas de banho “tudo-menos-higiênicas” eram intermináveis, o sol derretia a vaselina dos corpos atléticos, as barraquinhas de bolas de berlim, pastéis de nata e batatas fritas diziam “basta corres 42km e podes comer isto e muito mais” (vi alguns que corriam com tanto gás que achei que estavam mesmo a pensar nos hidratos de carbono ao lado da meta), entre muitas mais coisas.

Mas é este o espírito. As câmaras dos telemóveis e máquinas fotográficas não terem descanso nem por um segundo, pessoal a (re)encontrar amigos das corridas, das jantaradas, dos passeios e de todos os momentos, os sorrisos nos rostos das pessoas predominavam, apesar de muitos estarem assustados – quero dizer são 42km, é a mesma distância que faço de ir e vir da faculdade para casa e todos os dias agradeço por não ter de o fazer a pé –, a boa disposição e as brincadeiras são garantidas. Ninguém julga ninguém, todos se ajudam, quando um desiste os outros puxam por ele, quando há caibrãs ou alguém cai não é preciso ambulâncias, é um braço para um lado e uma perna para o outro, estica ali, encolhe acolá e tudo fica no sítio. Porque é isso que tenho observado ao longo dos anos, que os atletas são altruístas uns com os outros. Ninguém fica mal e não existe nada mais bonito do que isso.

Nunca fui de corridas, mas a minha família sempre teve esse bichinho. Desde que me lembro sempre fui bater palmas e gritar o nome de alguns membros que partilham o mesmo sangue que o meu. Não só em várias provas de corrida, mas também em triatlos. O que mais gosto nestas competições é que nunca significam literalmente isso. Não existem rivalidades. Os atletas vão com o objetivo de correr e se divertirem, de acabar a prova, alguns nos melhores tempos possíveis, outros nas possibilidades que o tempo lhes der. Cada um ao seu ritmo, a desfrutar cada passo que dão, cada gota de suor.

Nunca fui de corridas, mas tenho o bichinho. Só me falta deixar de ser preguiçosa e lançar-me de cabeça. Sempre adorei caminhadas e não me importo de estar horas ao ar livre a praticar exercício, mas tem de ser mesmo assim: ao ar livre. Apoio os ginásios e já ponderei várias vezes experimentar um. Nunca avancei com essa ideia, porque vou estar fechada em quatro paredes e não troco o ar puro, a luz do sol e a brisa do vento por nada. Este ano mentalizei-me que tinha de começar a correr. No entanto, quando comecei fraturei o cuboide. Que irónico és meu querido Karma… agora estou preguiçosa outra vez e ainda para mais estão a chegar os dias de chuva e frio. Agora, só para o ano. Entretanto vou batendo palmas por aqueles que passam ofegantes a descer a circunvalação e vou gritando os nomes daqueles que consigo ler nos dorsais. “Vai Pilar!”, “Força Óscar”” e levantam-me os polegares com um sorriso. Não, não me conhecem, mas sempre lhes dá outro ânimo. Pelo meio também refiro as bolas de berlim nas barraquinhas, assim como a cerveja, questiono-me se será tortura ou motivação, deduzo que seja um misto dos dois. Passam os meus familiares e berro para se despacharem pois correm a passo de caracol. Mentira, correm ao seu ritmo, mas assim vão mais rápido para depois me encharcarem com o suor de um abraço de felicidade. Lembram-se do aroma a suor que referi ao bocado? Esqueçam. Esse cheiro existe, mas é completamente aniquilado pelos sentimentos de felicidade e orgulho que sentem por terminarem.

 

Não importa o tempo que demoraram. O que importa é que chegaram ao fim e mais uma vez, a Maratona do Porto bateu o recordo de atletas a cortarem a meta após 42km. Parabéns Porto, não só pelos 4.558 atletas que cortaram a meta, mas por todos aqueles que se desafiaram a percorrer essa distância, a todos os que participaram na family race de 15km e aos caminhantes dos 6km. Estão todos de parabéns. 


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