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Crossfit: de corpo e alma

Ana Marinho da Silva 18.01.2016

Suor, determinação e superação. São estas as palavras que melhor definem o Crossfit, a modalidade que está no auge da fama. A verdade é que quem entra, dificilmente saí. Este é o treino que tem apaixonado Portugal nos últimos cinco anos, atraindo pessoas de todas as idades.

Tudo começou graças à curiosidade, mas desta vez o gato não morreu. Assim foi com Luciana Teixeira de 16 anos, que praticava dança no Acro Clube da Maia. No entanto, apesar de os seus pés acompanharem um certo ritmo, os seus olhos brilhavam, vibrando com o andamento da sala ao lado “cada vez que estava na aula despertava-me interesse das coisas que eles faziam”.

Experimentou e nunca mais saiu. Deixou para trás os estilos de outrora, sendo agora conduzida, não por um cavalheiro, mas por uma sequência de múltiplos exercícios intensos e um grupo de amigos, incluindo o treinador que puxa por ela. Passando assim mais de um ano. 

No entanto, é necessário recuar atrás no tempo e perceber de onde e como surgiu esta modalidade que a conquistou. Compreendendo os objetivos da mesma.

O Crossfit surgiu em Portugal há cerca de cinco anos, mas foi idealizado e criado nos Estados Unidos por Greg Glassman como treino de ginastas de alta competição, sendo mais tarde difundido para as forças de segurança norte-americanas como um treino funcional de sobrevivência.

Com o passar do tempo foi sofrendo algumas alterações, não deixando de manter as suas raízes. O Crossfit é um treino funcional de alta intensidade, de diversos exercícios, maioritariamente realizados com o peso corporal em forma de circuito, como agachamentos, flexões, burpees, elevações e muitos mais, utilizando (ou não) materiais como barras olímpicas, bolas medicinais, halteres e outros.

O Crossfit encontra-se espalhado pelo mundo e atraí cada vez mais pessoas para a sua prática. É de salientar que o sucesso desta modalidade já levou à abertura de dezenas de boxes em território nacional. Muita gente pratica pelo facto de estar na moda, mas Fábio Carvalho, treinador desta modalidade, acredita que irá existir uma regressão, tal como tudo na vida. Ele assegura que quando este “boom mundial” terminar, muita gente irá desistir, mas serão imensos os que irão continuar “o boom irá acabar, mas a modalidade em si continuará em Portugal e pelo mundo”.

Fábio afirma que esta modalidade atrai muitas pessoas devido à convergência de três desportos “powerlifting, endurance (natação, ciclismo, atletismo, entre outros) e ginástica”. Sendo esta a principal razão que a distingue das restantes práticas desportivas.

Apesar das lesões serem raras, não são inexistentes. Um dos papéis mais importantes de Fábio e dos restantes treinadores é zelarem pela saúde dos seus alunos. Tentam evitar qualquer risco de lesão, estando sempre atentos aos movimentos executados. Para além disso, preocupam-se em motivar os seus alunos para que ganhem mais confiança e não desistam dos desafios.

A segurança do crossfiter é extremamente importante. Assim, o treino possui três momentos bem definidos: aquecimento, acompanhado de alguns alongamentos e mobilidade articular; treino de força e de aperfeiçoamento da técnica dos movimentos e, finalmente, o WOD (workout of the day).

O objetivo desta modalidade é tornar a pessoa mais forte a termos físicos e psicológicos. Para além de mais resistência e equilíbrio, maior coordenação, mobilidade, agilidade e precisão, o Crossfit permite que os atletas aumentem a sua autoestima e confiança, libertando o stress acumulado. Um dos objetivos de Fábio é precisamente este “para além de querer formar bons atletas, quero formar melhores pessoas”.

Ana Ribeiro, de 24 anos, praticante há cerca de 7 meses, é uma dessas pessoas, admitindo que “o elevado grau de exigência dos exercícios e o facto de existirem objetivos de tempo, de número de repetições ou de carga a cumprir acabam por constituir propostas de autossuperação que fomentam a construção da resiliência e de uma mentalidade mais positiva.”

Os exercícios são variados e intensos, de modo a que o corpo não se adapte e esteja sempre a ser estimulado, acelerando o metabolismo e queimando mais calorias. O facto de os treinos nunca se repetirem é uma das coisas que Ana mais gosta “Agrada-me o facto de os WOD’s serem sempre diferentes entre si, introduzindo novos exercícios e impedindo os praticantes de se habituarem ao grau de esforço físico e também à tipologia de movimento.” 

A adesão tem sido enorme, sendo poucos os que não se rendem logo à primeira experiência. A maioria dos ginásios já oferece aulas de Crossfit, porém, os locais ideais para a prática deste desporto são as “boxes”, espaços especializados na modalidade e que oferecem todas as condições necessárias para uma conduta segura dos exercícios. O Art Gym Company juntou o melhor dos dois mundos, abrindo uma box dentro do próprio ginásio, já aqui referida: a Maia Box Fit.

Fábio afirma que o lema deste local é “a box where everyBody fits”, que significa que é uma box para todas pessoas. Ao contrário do que, à partida, se possa pensar, o Crossfit é uma modalidade que se adapta a qualquer um, incluindo crianças, idosos e grávidas, independentemente da condição física, desde que sejam acompanhados por profissionais especializados. Luciana concorda plenamente “esta modalidade é para qualquer pessoa!”

Mas… existe um senão. Fábio alerta para o facto de ser necessário respeitar “o princípio da individualidade” e com isto ele quer dizer que se deve criar um plano apropriado para cada atleta “adaptar o WOD consoante o nível técnico de cada um, condição física ou problema patológico”.

Nuno Sousa de 36 anos também ficou seduzido pelo Crossfit. Pratica desde a inauguração do Maia Box Fit, em setembro de 2014, e afirma que o seu primeiro impacto foi positivo “foram realizados exercícios de mobilidade e treinos com o peso do corpo, o que deu a perfeita perceção da versatilidade do CrossFit”.

Nuno praticava corrida, mas o Crossfit deu-lhe “uma visão diferente do desporto”, melhorando a sua condição física em todas as vertentes.

Como se diz nos ditados populares “tal pai, tal filho”. O bichinho de Nuno passou para o seu filho Hugo Sousa, de 19 anos, que praticou atletismo durante 3 anos. Atualmente, Hugo tem objetivos muito bem definidos, pretendendo evoluir o máximo possível para tentar ser “o melhor atleta nacional nos próximos 3 anos”, ambicionando participar em competições “inicialmente a nível nacional, provas como os promofitgames, communitygames, entre outras. E se possível futuramente nos crossfitgames”.

Para cumprir os seus objetivos, Hugo treina diariamente, descansando um ou dois dias por semana, dependendo do desgaste físico “tendo alturas durante o ano em que treino 2 ou 3 vezes ao dia”.

Luciana também pretende participar numa competição, treinando todos os dias, tal como Hugo, mas não com a mesma frequência diária. Tem as suas prioridades bem definidas e concilia os seus treinos com a sua vida académica “em época de testes costumo só treinar 3 vezes por semana”.

Admite que sempre foi uma rapariga competitiva “quando sentir que estou verdadeiramente preparada para o fazer, gostava de tentar”, mas também muito curiosa, querendo participar “para ter uma pequena noção do que é uma competição de Crossfit”. 

Francisca Patrocínio, de 16 anos, treina diariamente sempre que possível, não descurando dos estudos acabando por reduzir os treinos semanais “tento sempre gerir o meu tempo ao máximo de modo a conseguir conciliar todas as minhas atividades”. Tal como os seus colegas já ponderou na possibilidade de participar numa prova, mas não por agora “neste momento tenho como ambição apenas melhorar a minha condição física, mas, no futuro, gostaria de entrar numa competição de Crossfit.”

Nem todos partilham a ambição de Hugo, Luciana e Francisca, não considerando sequer a participação individual numa prova. No entanto, quando se fala em equipa, já existe essa possibilidade. Carlos Fernandes, de 20 anos, é dos primeiros a afirmar que não tem intenção de participar sozinho, “mas um desafio em equipa já me motiva mais”. Nuno é da mesma opinião, admitindo que só tem interesse de participar com os seus colegas de treino “se for por equipas”.

Desde que entrou no Maia Box Fit que Carlos considera o ambiente da box inigualável, admitindo que é um dos principais motivos que o mantém ligado ao Crossfit “há sempre um espirito de motivação e entreajuda entre os atletas tornando os treinos mais interessantes”.

Carlos recorda o seu primeiro treino e as dores musculares que o acompanharam “perto de uma semana”. Admite que apesar de nesse momento estar receoso por não se considerar à altura dos seus colegas, o espírito de equipa sempre esteve presente “senti que era inferior a todas as pessoas da box porque não fazia ideia o que me esperava e notava que os outros atletas eram tecnicamente mais desenvolvidos do que eu. No entanto, fui apoiado por todos os presentes que me motivaram a continuar.”

Aconteceu o mesmo com todos. A primeiro treino foi doloroso, mas deixou-lhes algo que não conseguem explicar, mas que os fez voltar. Ana admite que ficou intimidada pelo facto de ser uma modalidade exigente, tendo “medo de não conseguir corresponder a esse grau de exigência, mas permaneceu a curiosidade e a vontade de continuar os desafios por mais tempo.” 

Fábio afirma que é normal os principiantes, no primeiro impacto, se sentirem inseguros, mas chama à atenção que devem começar com calma e maturidade, para terem consciência da exigência dos exercícios “qualquer iniciante desta modalidade tem que começar por deixar o seu ego na porta, pois é necessário perceber que no início tem de se preocupar com a técnica e a postura dos movimentos e a compreensão dos mesmos. Com o tempo o resto irá surgir desde que este se comprometa, sempre, a uma entrega total e a dar o seu máximo”.

Todos os atletas do Maia Box Fit estão de acordo com Carlos, o ambiente da box é dos melhores e existe uma grande amizade entre eles. Para além de uma vida mais saudável, de uma melhor forma física e psicológica, todos referem que ganharam um grupo de amigos.

A Ana refere os “momentos de camaradagem equilibrados com os momentos de prática de exercício físico” pelo facto de “passarmos pelos desafios juntos acaba por nos unir um pouco uns aos outros, a ponto de a presença dos colegas nos motivar e nos fazer querer chegar mais longe.” Hugo fala das “diversões que acontecem na box” que lhe melhoram o dia.

Nuno admite que apesar das diferenças de idade, existe um “ambiente de comunidade, entreajuda, motivação e superação dos atletas de todas as faixas etárias”.  Luciana relaxa sempre depois de um dia de aulas, pois “são todos muito divertidos e simpáticos com toda a gente.”  Já Francisca diz que é um ambiente animado, com uma grande organização e muito trabalho “tanto o treinador como os alunos interagem de maneira ordeira, com muita brincadeira à mistura e com treinos muito intensos onde se nota o esforço e empenho”.

Todas estas declarações permitem-nos percebem o porquê de os treinos de crossfit serem maioritariamente em grupo. Os atletas ajudam-se uns aos outros, os mais experientes puxam pelos colegas que praticam há menos tempo, motivando-os para superarem os desafios e cumprirem objetivos, o que potencia a eficácia dos exercícios.

“Superação”, “versatilidade”, “desafiadora” e “atitude”. São estas as primeiras palavras que surgem na cabeça dos crossfiters da Maia Box Fit para definir a modalidade.

 “A diferença entre o impossível e o possível reside na determinação de um homem” já dizia Tommy Lasorda. O Crossfit tem conquistado o mundo e este é apenas o início.

 


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