pensar

Calmo Desespero

Hélia Saraiva 19.01.2016

Bombaim

 

A decisão de Laila em acalmar os seus filhos foi acelerada por dois ruídos inquietantes: vidro estilhaçado, seguido de choro das crianças. Encaminhou-se apressadamente e com os batimentos cardíacos aos pulos na direção da cozinha.

- “Pati” e ele também “patiu”. queixou-se o seu filho de quatro anos entre lágrimas e soluços.

- Mãe, foi ele que teve a ideia do bolo, indicou Dhruva.

A matriarca percebeu que o choro havia sido causado pelo susto do pequeno ao ouvir o estrondo da tijela de loiça no chão. Por isso, a sua expressão de aflição suavizara-se, dando azo a um sorriso de alívio quando olhando ao redor da mesa, percebeu que os seus pequeninos tentavam confeccionar um bolo de cardomomo.

Adrika, a filha mais velha, nasceu um ano antes de Harpreet observou a suavização da expressão da mãe e apressou-se a esclarecer:

- O pai diz que "O bem que se faz num dia, é semente de felicidade para o dia seguinte.” Pensámos em fazer-lhe um bolo para o deixar feliz.

- Meus marotos!, exclamou a mãe. - Como o fariam sem receita? Sabem de uma coisa: vamos todos fazer um bolo delicioso.

Pega numa vassoura, varre os cacos, enfia o avental pelo pescoço e enquanto pega nas pontas do mesmo que o seu marido tantas vezes desapertara murmura “por onde andarás Chandra?”

Após a sua saída intempestiva, o cônjuge de Laila percorreu a rua a passos largos, como se a largura das passadas anestesiasse a sua angústia e o seu nervosismo. Deambulou pela vizinhança. Calcorreava os percursos tão rapidamente que os seus pés pareciam flutuar.

- Chandra, onde vais tão apressadamente? Estás pálido!, ouviu a um dos seus vizinhos. Andou, andou, andou. Abrandava a passada somente para se desviar do dejeto de alguma das vacas que o olhavam indolentemente, até que deparou com a entrada de uma cafetaria. Assomou, entrou e fechou os olhos como reacção às luzes de néon que formavam a palavra Xiva na parede defronte da entrada. Reabriu-os e viu posters de alguns dos rostos femininos muito sorridentes a olharem-no, pestanejou e percebeu que eram fotografias de algumas das atrizes mais famosas de Bollywood, ladeados de estatuetas dos deuses do panteão indiano. Pediu um chá, invocou mentalmente Ganesh e saiu, depois de o beber e pagar, com outro estado de ânimo. Galgou as ruas estreitas e sinuosas até chegar à casa do Pandit Nehru. Bateu à porta, pediu para ser anunciado, levado à sua presença, saudou-o e explicou-lhe o que o levava ali começando por explicar o cansaço sentido pela sua peregrinação pelos diversos consultórios dos profissionais de saúde, bem como a sua desconfiança pelos “enxames” provocados pelas ciências da saúde.

- Porquê?, perguntou-lhe o Pandit Nehru.

- Acho que desviam a consulta do seu eixo: tratar os sintomas, prevenir maleitas, preservar a saúde e tranquilizar o paciente para que os tratamentos prescritos pelos profissionais de saúde sejam devidamente seguidos pelo paciente, sem situações angustiantes.

– Já ouviste falar no modelo biomédico?, perguntou-lheo Pandit. Chandra abanou negativamente a sua cabeça e abriu ainda mais os seus olhos escuros e pestanudos, que tão gabados eram pela sua esposa.

- Esse modelo é invasivo, incide na integração do paciente, em vez da sua inclusão e contém um paradoxo, pois a medicina nunca evoluiu tanto nos diagnósticos e nos tratamentos das doenças. Porém o ser humano nunca se sentiu tão vulnerável., sentenciou o ancião. - Foi criado outro modelo, de cariz social, focalizado na prevenção e preservação da saúde. Aqui, em Bombaim, foi constituído um grupo de médicos adeptos desse modelo. Esse grupo intitula-se Confraria de Parvati, os seus membros têm-se empenhado em divulgar e esclarecer com espírito crítico e através de uma linguagem acessível as práticas reguladoras dos consultórios, hospitais e centros de saúde. Eles querem contrariar o défice de comunicação existente entre os especialistas e os pacientes, uma vez que em virtude do enxame de informações colhidas aqui e ali, descontextualizadamente, o paciente fica destituída de paciência.

- Impaciente, é como me sinto!, desabafou o indiano.

O ancião sorri, cofia a barba e prossegue como senão tivesse sido interrompido:

- O paciente faz o seu próprio diagnóstico com dados recolhidos de revistas de entretenimento, da internet, solicita uma consulta e diz-lhe quais os exames que deseja fazer mediante os sintomas para os quais foi alertado na publicação, ou quais os medicamentos de “última geração” que deve tomar. E, quando o médico resiste, o utente por vezes procura outro profissional, até encontrar um que diga o que ele quer ouvir, pois o “cliente tem sempre razão”.

- Pois é, pois é. Então isso não deve ser feito? Não devo ler os artigos de saúde publicados no Maharashtra Times?

O guru ergueu os olhos e as suas mãos magras em direção ao céu. Chandra admirou os seus dedos compridos, filiformes e escuros. Viu-o a inspirar fundo duas vezes, a beber um gole de chá, a clarear a garganta e a apoiar delicadamente o copo no tabuleiro. Este encarou-o e pergunto-lhe:

- Já fraturaste algum braço ou perna? Faço a pergunta porque às vezes o nosso pensamento estagna, como se estivesse engessado.

O marido de Laila olhou-o embasbacado. Tossicou e redarguiu:

- Não, mas o meu filho Harpreet partiu a perna direita e fui eu que o levei ao hospital onde o medicaram e engessaram. As enfermeiras ainda me deram o contacto de uma instituição que emprestava material ortopédico e de reabilitação. Mas eu recusei-me a ir lá. Sabia que o meu filho não precisaria de muletas, eu ajudá-lo-ia. Peguei nele ao colo e levei-o para casa, não queria que apanhasse uma infecção hospitalar. Ali restabelecer-se-ia, devia vê-lo dentro de casa, a saltar ao pé coxinho porque não podia andar como se estivesse a jogar permanentemente à macaca, até comprei várias patelas coloridas para ele “lançar” com a Adrika e os demais irmãos. Estava tão bem…até que veio aquela maldita febre… Bacteremia f oi o diagnóstico. Ele tomou antibióticos e agora isto…osteomielite. A Laila disse que um dos piores cenários envolve a amputação. Ela é muito ingénua, não entende que isso é conversa dos médicos para nos fazer desembolsar dinheiro.

O ancião aconselhou-o a procurar a apoio na confraria onde decorria um simpósio de acesso livre sobre osteomielite na infância e a juntar-se à sua mulher e filhos. Levantou-se com a intenção de lhe transmitir que a visita tinha terminado.

 

 

Atenas

 

O trânsito estava cortado nalgumas artérias de Atenas para permitir o cortejo dos manifestantes. Viam-se cartazes, bonecos de papiermaché, caricaturas que parodiavam com aquela situação, satirizavam os governantes e até alguns empresários (armadores gregos e até um armador oriundo de Melbourne, cujo apelido era igual ao de um famoso serial killer americano), enfim criticavam o afã do lucro e com desdém descortinavam-se vestígios de uma alacridade pagã, despendidas durante a manifestação. As horas de sono e os euros devorados pelas chamas acendidas provocadas pela acção dos opositores eram lambidas pelo lume esperançosamente purificador presente em pequenos archotes, o que suscitou um paralelo com o fogo despesista disparado pelos improdutivos militares extremistas existentes noutros continentes.

Enquanto isso, Hemera e Nikolas reencontram-se, a pedido do professor e conversam:

- Hemera quero relançar-te um desafio, disse o professor. Ela afastou os seus cabelos negros, adotou uma postura rígida, ergueu a sobrancelha esquerda, acentuando a sua curvatura fazendo sobressair os seus olhos azuis e a sua pele clara, a sua diurnidade. Fazia essa expressão quando ouvia algo intrigante. Nikolas ruborizou perante a mímica da sua interlocutora “é a personificação da deusa do dia, não há dúvida” pensou.

- Sou toda ouvidos., gracejou ela, exibindo a sua dentadura cor de marfim. - Diz-me.

- Gostaria que nos auxiliasses de um modo mais interventivo do que aquele que referi inicialmente na organização do congresso internacional.

– Vos auxiliasse? Entendo Senhor Professor Doutor. Ajudar-vos-ei a partir do momento que me sejam apresentadas todas as condições.

Ajudar-vos-ei murmurou Nikolas. Pareceu confuso ao ouvi-la responder num tom formal, todavia percebeu a tónica usada e esclareceu-a subtilmente:

- Precisamos, quero dizer, preciso e precisam os meus colegas de uma profissional competente, com uma voz serena e afável como a tua…

A rececionista sorriu e suspirou descontraidamente. Confundiu o emprego da primeira pessoa do plural, habitual nas equipas, com o plural majestático.

- Sem, problema, qual é o tema? - Trata-se de um congresso sobre a minha área de investigação, física, como te disse, na qual estarão presentes membros de instituições como a Agência Espacial Europeia, o Jet Proplusion Laboratory da NASA e ...

- Nikolas, interrompeu-o ela, antes de prosseguires, devo dizer-te que não sei absolutamente nada sobre essa ciência, nem nunca participei em receções para membros dessas instituições. Não mereço a honra da reformulação do teu convite…

- Exatamente. Exatamente. Tu, Hemera desconheces os temas e os procedimentos, és neutra, uma cara nova. Não te escondo que as relações entre os nossos parceiros têm sido sujeitas a fricções. Nós, eu e os meus colegas de departamento, somos da opinião que os organismos internacionais e as faculdades devem pronunciar-se sobre questões sociais e humanitárias junto dos media, pois não investigamos numa torre de marfim, nem somos cientistas com cabelo hirsuto e olhar alienado. É certo que estará presente o Professor Apostolopoulos que a ajudará a moderar a conferência de imprensa.

- O professor Vasco Apostolopoulos, o imunologista? Não é aquele profissional cuja expressão em língua inglesa é semelhante à do Zorba?

Niko riu-se exibindo o seu sorriso sedutor.

- Não, é o Alexis Apostolopoulos e de facto tem uma dicção zorbiana. Independentemente disso, ele poderá responder ao que consideramos ser do foro da astrofísica, e tu serias a nossa responsável pelas relações públicas. O que achas? Diz-me que aceitas.

 

 

Buenos Aires

 

Marco demorou vários minutos a habituar-se aos primeiros raios da aurora amanhecer. Tapou os seus olhos com a palma da mão enquanto as suas pupilas se contraíam. Deixou passar ténues raios de sol entre os seus dedos. Pareceu-lhe ouvir música e decidiu levantar-se.

Álvaro decidiu conversar com o seu amigo. Temia que ele se zangasse e barafustasse alto, como era seu hábito, o que incomodaria os vizinhos e obstaria uma conversa racional. Para evitar uma reação intempestiva ligou o seu computador, sintonizou a rádio Mitre na esperança de que ouvir alguma referência ao último jogo do Atlético Boca Juniors. Invés disso escutou os sons inigualáveis de um tango antigo. Álvaro reconheceu os acordes de “Loca illusión”, tocada pelo Julio de Caro e o seu sexteto, um tango ouvido na companhia do seu amigo Marco e do respetivo pai, numa das raras ocasiões em que conviveram cordialmente os três. O adepto do Boca explicara-lhe, no dia 11 de Dezembro, Dia do Tango, que num certo sentido, Julio de Caro é para a orquestração do tango o que Carlos Gardel foi para o seu canto, pois ambos foram homens que marcaram um antes e um depois na história deste género musical. - Dizem que a música amansa as feras, por isso espero que a melodia evite qualquer irritabilidade.

- Bom dia!, declarou o estudante de filosofia.

- O que se passa?, perguntou Marco.

- Isso é o que gostaria de saber. Não tens emprego. Tinhas planeado escrever um roteiro sobre as mães de Maio para o submetermos ao projeto do departamento de Cinema documental na UBA, mas desde que conheceste aquela rapariga, a ave das “penas negras” a tua vida retrocedeu. Inclusivamente abriste os braços, e as narinas para a mais sanguessuga das amantes. Calou-se ao ver que o seu amigo soltava sons abafados e os seus ombros se erguiam espasmodicamente. Este percebendo o olhar atónito de Álvaro soltou umas boas gargalhadas e perguntou:

- Queres que eu abra um negócio de animais ou de música? Ora falas em amantes sanguessugas como o Eric Clapton, ora falas em “golondrinas”. Sabes que não gosto de Nat King Cole, nem de zoofilia!, exclamou entre gargalhadas.

- Estás preocupado comigo? Ficas a saber que tu me preocupas. Não tens sido capaz de te sustentar.

Álvaro não esperava essa argumentação e não soube responder-lhe.

- Achas que me vou suicidar atirar da ponte …, ou algo semelhante?, inquiriu Marco.

- Sim!, seguiu-se outra gargalhada sonora fazendo-o sentir-se tão perdido como uma criança órfã.

- Não, Álvaro. Prosseguiu - Enquanto estive ali deitado, a “bovinar” vi lampejos destas últimas semanas, como se fosse espectador de mim próprio percebi que corro o risco de estar dependente dessa amante gulosa, a cocaína, com insinuaste. “Ela não mente” como cantou o Clapton e eu não posso mentir a mim próprio. Tenho de aceitar que a Cibeles, a andorinha, partiu e tenho a esperança que, como as andorinhas, ela volte. Entretanto, não posso ser um peão num tabuleiro de xadrez, tenho de agir. Estou a determinado a procurar ajuda terapêutica



 

Melbourne

 

- Vai ficar tudo bem? Como – perguntou Taylor num tom colérico enquanto o seu rosto parecia encher-se de sangue de tão vermelha estava a sua face.

- Como?, – repetiu. O que vamos fazer? Mabel retorquiu:

- Bom, ele tem razão, não temos muitos motivos para acreditar nisso, mas se temos alguma oportunidade de resolver esta tragédia, temos de tentar.

- Isto tudo parece-me um pesadelo muito surreal, disse Taylor.

- Exatamente, surreal! Exclamou a secretária. - Disseste bem.

“Não sei”. Ele olha para o pai, que está silencioso e cabisbaixo e dispara:

- Vais ficar aí parado, sem fazer nada? Tu, tu pre pre miste o o o gatilho. Gaguejou o filho , demonstrando sintomas do seu nervosismo, dado que tinha tendência para gaguejar quando se encontrava em situações de grande tensão. O pai não responde, olha para a sua secretária e pergunta:

- O que pretendes fazer, Mabel? Tens cumprido exemplarmente as tuas funções, tens sido a minha fada, mas tens uma varinha de condão com poderes capazes de fazerem desaparecer um cadáver? Capazes de me livrarem disto? Ele hesita por um momento, ouve-se o marulhar das águas e o ruído característico dos barcos ancorados na marina. Ela ouve-o atentamente, encara-o e responde:

- Não é altura para elogios, nem para divagações emotivas nem moralistas, temos de pensar nalguma solução. Qual é a vossa? Eu confio em ti, sabes? Sei que não és um maluco sanguinário. Deves ter tido uma razão, por isso (pausa), por isso tem de haver uma solução, e se existe não podemos ficar aqui, não é? Sentem-se, vamos pilotar o barco em direção a…

- Estás maluca?, pergunta Taylor exasperado. Ele olha para cada um deles alternadamente. O pai apoia a sua mão no braço do filho numa tentativa de o acalmar, mas ele sacode-a.

- O pai da Emily, da minha amiga, está morto. Não entendem?

- Levantemos a âncora- exclamou ela!

- Marbel, queres que o meu pai fuja? Queres fugir com ele? Tornar o meu pai num criminoso foragido e tornar-nos cúmplices? Para onde pretendes levá-lo?

- Há uma maneira de o livrarmos de ser condenado. Eu também estou confusa como tu. Eu conheço-te desde bebé. Acompanhei o teu crescimento. Ainda não sei como explicar, só sei que precisam de confiar em mim. Os dois permanecem calados e encaram-na. Tu és um jogador de xadrez, não és, Taylor? Pensa nos seguintes lances: 1º existiam certezas de que Mason estava falido; 2º dizia-se que tinha ligações com submundo, com o tráfico de armas que eram vendidas aos extremistas islâmicos, logo não podia ser olhado com bons olhos. Já pensaste como ficaria a tua relação com a Emily?

Roger olha surpreendido com a elocução da mulher e o seu filho levanta-se com os maxilares contraídos.

Entretanto, Bridget andava para a frente e para trás inquieta com a demora do marido e do filho. A Maria estava no andar de baixo a iniciar os preparativos para o almoço. Ouviu o telemóvel tocar, precipitou-se para o atender. Viu que a chamada era feita por alguém que não se queria identificar. Apreensiva atendeu-o, ouviu somente uma respiração forte.

–Estou, estou - repetiu. ESTOU!, gritou. Ninguém responde e desligou. Quem diabo seria?

Decidiu sair. Foi ao quarto onde mudou de roupa, vestiu uma blusa branca, umas calças brancas e uns mocassins castanhos de camurça, procurou as chaves de um dos carros no escritório. Não encontrou nenhumas. Abriu a primeira gaveta da cómoda de mogno, remexeu-a e não as encontrou. Tentou abrir a segunda e a terceira gavetas e não conseguiu, pois estavam trancadas. Raramente entrava no escritório e nunca havia remexido as gavetas do seu marido, mas a preocupação levou- a fazê-lo. Pensou em forçar a fechadura, olhou em volta e viu um abre cartas pontiagudo. Decidiu empunhá-lo, porém foi interrompida pelo som de pancadinhas na porta.

 

Tombuctu

Robert recebeu um convite de um dos diretores do departamento cultural e do património de uma plataforma internacional de ONG’s para uma reunião consigo e com dois dos seus colegas. Esse convite dava-lhe a possibilidade de conciliar a oportunidade de visitar os monumentos sagrados de Tombuctu com os objetivos da sua missão. A sua curiosidade pelo Mali não surpreendeu os amigos norte-americanos deste arquiteto, pois havia iniciado uma monografia sobre as construções em adobe. É certo que estava por terminar, mas a recolha de material para a mesma levou-o a conhecer a maior construção arquitetónica de adobe do mundo, a grande mesquita de Djenné e a ouvir o cântico do mujedin recordando aos fiéis, durante a sua convocação, a omnipresença de Alá através do altifalante “Allaaaabu Akbaaaar… Alllaaaaabh Akbaaaaarr”. No entanto, a sua paixão por essa zona abaixo do Saara não surgiu por intermédio dessa chamada, espontou numa ocasião festivalesca, suscetível de ser adaptada a um romance; na primeira vez que assistiu ao festival do deserto em Djenné. Foi nesse evento malinês, inspirado na tradição tuaregue pelos encontros de música que soube da existência dos Dogon, através de um intérprete de tamasheq, que mais tarde foi intimado a ser seu braço direito: Ahmed. Foi ao longo das conversas que manteve com o então funcionário da ONG Groupe Pivot Santé Population que recolheu informações sobre uma eventual deslocação a Tombuctu. Lembra-se de um anos depois desta estadia ter desembarcado em Douentza, onde pernoitou escassas horas, porque tinha de sair do local de hospedagem antes do amanhecer. Haviam-no informado que os escassos veículos que serviam de “transportes públicos” partiam à alvorada. Posicionou-se no local de passagem, sem camuflar as suas olheiras, de polegar em riste, embora não fosse necessário. Não esperou muito por um jipe quatro por quatro cujo condutor lhe deu boleia, como lhe havia explicado Ahmed. Não estavam na estação das chuvas, porém os duzentos quilómetros de estrada que os separava da cidade mítica não foram percorridos linearmente. Os percalços ocorridos abrangeram dois pneus furados, várias paragens para os demais passageiros fazerem as orações, paragens para ajudar outros condutores com dificuldades relacionadas com os radiadores, tonturas motivadas por falta de hidratação até que, cerca de treze horas após a partida chegaram ao mercado da cidade. Chegara à cidade dos 333 santos ou à “Atenas africana” como era denominada e foi invadido por uma sensação de alegria intensa. A primeira coisa que fez, depois de apoiar os seus pés em terra, foi deambular pelas suas ruas, sem qualquer vontade de perguntar aos nativos qual a localização dos monumentos que conhecia somente a partir de filmes e de fotografias.

Visitou a antiga universidade corânica, passeou em redor das mesquitas de Sankore, Sidi Yahya e entrou na Djingarey-Ber, onde os turistas podem entrar, e aí se demorou e encantou. Aquela mesquita foi construída por Es Saheli, um poeta e arquiteto nascido no século XIII, numa cidade espanhola, Granada, que foi convidado pelo Imperador Kanku Mussa para a erigir. A singularidade do arquiteto andaluz, cujas construções terão influenciado Gaudí, foi inspirada, segundo os relatos orais pelos formigueiros. Essa é uma justificação que o faz torcer o nariz, mas para validar ou invalidar os relatos foi aconselhado a ler um livro intitulado El Arquitecto de Tombuctu, da autoria de outro artista das plantas arquitetónicas coevo de nome Manuel Pimentel, que curiosamente integrou o governo de Aznar.

Essas lembranças ocorreram por volta de 2012 pouco antes de ter ocorrido um golpe militar no Mali e os extremistas islâmicos terem destruído diversos monumentos. Nomeadamente túmulos de alguns santos muçulmanos, bem como vastas bibliotecas da cidade, o que desencadeou veementes protestos internacionais.

 

No final do mês de julho deste ano, leu, num comunicado, que a restauração de 14 mausoléus históricos danificados em Tombuctu há três anos, por rebeldes islâmicos, havia sido concluída. A iniciativa de restauração foi o resultado de um excelente trabalho de cooperação entre a UNESCO, o governo do Mali e várias outras organizações internacionais. Robert sabia que a relevância desse projeto não só beneficiaria o legado de Tombuctu, e o seu próprio projeto, uma vez que também criou 140 postos de trabalho contributivos para estimular a economia local, revitalizando o artesanato tradicional. Foi a um desses artesãos, que ainda tinha um elo familiar com Ahmed, que ele encomendou uma túnica para oferecer à sua visitante argentina que acabara de avistar no aeroporto.

 

Calmo Desespero (Versão integral... so far): https://www.drive.google.com/folderview?id=0B-rp-Oba2XUKfjZqb0lELTQ5SFJKd09CcERyU25sMGpvSmt2bU4tVFZWZGFaRFV2MmNzOXM&usp=sharing


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