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Viagem sem fins

Ana Marinho da Silva 25.01.2016

Olho para trás no tempo e reflito na pessoa que me tornei. Todos temos uma história que nos marcou, que nos mudou de alguma forma.

Lembro-me perfeitamente da minha. Não foi feliz. Aliás, foi o mais infeliz possível. Pelo menos para mim. E nunca pretendi revelar isto aos meus pais, para eles foi apenas uma fase da vida, “normal da idade”.

Mas essa história moldou-me e, acreditem nas minhas palavras, melhorou-me.

Com os anos a responsabilidade aumenta e a ideia de “eu quero é ser grande para calçar sapatos de tacão alto, sair de casa e ir para a discoteca com os meus amigos” tornou-se numa mera nuvem que se foi com o vento.  A infância é tão inocente e por isso mesmo, tão maravilhosa. Quando crescemos as coisas mudam e sabemos muito bem disso.

Ou melhor: crescer não é o problema, o problema é ser adulto. Preocupações por tudo, responsabilidades no auge, stress a todas as horas, pouco tempo para pensar o que é realmente importante, ter um momento para sorrir, uma pausa para refletir.

Observo os meus pais. As viagens tornaram-se rotineiras. Estou neste momento a ir não sei para onde e só consigo reparar que todas as viagens de carro se tornaram as mesmas. Recordo-me quando era pequena e só perguntava “já chegamos?”, “e agora, já?”, “falta muito para chegarmos?”, que ao fim de 5 minutos de sair de casa já estava aborrecida, por isso deitava-me, depois ficava em perninhas chinês, posteriormente com os pés em cima do banco da frente. Quando mudar de posição não chegava, contava as árvores, tentava adivinhar a marca dos carros, cantava ou então dava porrada amorosa ao meu irmão, isto porque o enchia de beijos e abraços, logo após um soco no braço ou um beliscão na perna. Quando isto não saciava os meus bichos carpinteiros, incomodava os meus pais. “Papá, para que serve isto?”, “Mamã, põe a música mais alta!”, “Papá, depois levas-me às cavalitas?”, “Mamã, dá-me uma goma!”. E assim se passavam, 1, 2, 3, 4 horas de viagem. Mas e agora?

Olho para o meu pai, concentrado na estrada, quase sem pestanejar. Olho para a minha mãe, está conectada com os seus pensamentos. Olho para o meu irmão, dorme que nem um anjinho.

Está a chover lá fora. Cada um dos elementos desta família está fechado no seu mundo e eu, estou colada à janela a apostar qual das gotas irá vencer a corrida.

Venceu a esquerda. Eu sei, parece política, mas é apenas a minha nova forma de distração, agora com menos bichos carpinteiros e mais “responsabilidades”.

Pego no livro e começo a ler. Só consigo ler um capítulo de cada vez, visto que ainda não estou imune aos enjoos literários causados pela cinética do carro.

Tanto o livro como a corrida das gotas têm um fim.  No entanto, apesar da corrida ter sempre o mesmo fim: uma delas ganha.

No livro, nunca existe o mesmo final. É por isso que nunca leio um livro mais do que uma vez, porque os fins mudam e eu não quero que eles mudem.

Muitas vezes questiono-me se é assim com a vida. Se tivéssemos outras oportunidades para reviver as mesmas histórias, mas não as pudéssemos alterar, não iríamos retirar lições diferentes de cada experiência?

Tenho medo dos fins.

Talvez por terminarem num são tão agudo na minha garganta, mas principalmente por serem incertos.

O meu irmão deu um salto. Deve estar a sonhar.

Olho novamente para cada um deles e percebo que nunca me deram fins, mas sempre princípios.

Mas então e se o fim não for um fim, mas sim um princípio?

Está a chover cada vez mais lá fora. Não gosto de dias assim. Cinzentos. Que nos levam a questionar o mundo e o desconhecido.

Lembro-me que a minha história ficou marcada por dias dessa cor, mesmo quando o sol irradiava alegria. Na altura não compreendia as coisas, fechava-me em copas. Acreditava que a culpa era minha, por tudo e por nada.

Mas culpa de quê? Perguntam vocês.

“Dos olhares cruéis que me faziam”. Eis a resposta.

Sempre dei muita importância à opinião dos outros, ao que pensavam de mim e isso acabou por se tornar tóxico. Caí num poço fundo, muito fundo. Os bichos carpinteiros fizeram malas, a curiosidade partiu, a felicidade desapareceu e ficou apenas uma névoa na minha vida: onde tudo estava errado, onde eu não pertencia.

A verdade é que cada leitor decide qual o fim que quer dar à história que está a ler. Cada livro tem uma mensagem que é entendida de forma particular por cada um de nós. É uma questão de identificação. Compreendemos à nossa maneira e é por isso que os livros nos são especiais, nos tocam, nos marcam.

Eu decidi mudar a minha história. Ou melhor dizendo: criei uma nova. Admito que tive ajuda de alguns anjos, como as três pessoas que se encontram neste carro, mas muita da minha determinação esteve envolvida e foi fulcral para esse principio.

Foi precisamente isto que aprendi com os meus pais: não existem fins, apenas princípios. Podia ter referido que acabei com uma história infeliz, mas preferi fazer referência ao início de outra, carregada de coisas boas.

As viagens de carro são rotineiras porque todos nós precisamos de momentos de silêncio na presença de quem mais amamos. Mas o pós-viagem de carro é o mais inesperado e surpreendente possível, sendo mais um capítulo da minha história.

 

Ser adulto sucks, desculpem a linguagem. Mas crescer é ótimo.


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