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Tricô Aran

Liliana Machado 26.01.2016

A vida é como as malhas tricotadas: à primeira vista são fios retos, sem forma. Na ponta das agulhas, com vontade e criatividade, entrelaçam-se e talham verdadeiras peças de arte.

 

Este meu pensamento surge na sequência da experiência personalizada que a vida me tem proporcionado. Na adolescência era tudo muito claro para mim: a vida estava planeada em forma reta, tal como os fios de lã. Iria seguir jornalismo. Seria jornalista de profissão. Nada além disto faria sentido no meu plano. Terminado o curso, as coisas não se mostraram tão ágeis e fáceis como o plano traçado. Seguiram-se insucessos (mais pelo mercado do que pela falta de profissionalismo) atrás de insucessos. A vida emprestou-me as agulhas e eu comecei a tricotar o meu próprio destino.

 

Mudei a direção, apesar da boleia chamar-se ainda comunicação, escolhi uma estrada diferente. Dei uma oportunidade a outros tipos de comunicação e esta empurrou-me para as empresas ligadas ao vestuário. Fui aprender moda. Hoje estou apaixonada pelo meio, devido aos conhecimentos que tenho adquirido. Um deles vou partilhá-lo aqui, convosco.

 

Os torcidos de Aran

 

É fabuloso como tudo na moda tem uma história para contar, tal como no jornalismo. Numa aula de padrões falou-se dos torcidos de Aran. Assim, à primeira vista e sendo uma leiga, pensei: “os quê?”.

 

Vamos à desmontagem: os torcidos de Aran são uma técnica de tricô criada pelos habitantes das ilhas Aran, localizadas na costa oeste da Irlanda. São tricotadas tranças, pontos torcidos, na parte central das camisolas de lã, que dão um aspeto de relevo à peça. Geralmente, a lã usada na confeção é rústica, fiada à mão e na sua cor natural.

 

Um pouco de História

 

Não são exatas as origens da camisola Aran, no entanto, acredita-se que os desenhos tricotados em forma de torcidos sejam inspirados pelos motivos Celtas, que chegaram às margens de Aran por volta de 2000 aC. A cultura celta ainda hoje influencia os hábitos e costumes daquela região. Deste modo, encontram-se fortes relações entre o design celta e os padrões Aran. Estas semelhanças podem ser encontradas, por exemplo, nas pedras, cruzes e joias celtas.  

 

Mesmo após a difusão do cristianismo pelas ilhas Aran, por volta do século 8, este tipo de tricô manteve a sua inspiração inicial. Prova disso são manuscritos cristãos que fazem referência a peças de vestuário semelhantes às camisolas de Aran. No entanto, estes pontos poderão ter sofrido, por esta altura, a influência das duas inspirações: celta e cristã, uma vez que muitos pontos de Aran transmitem um significado espiritual: a escada de Jacob, em representação da luta e trabalho conjunto das Ilhas; a Árvore da Vida, que simboliza os clãs e as famílias das ilhas e o ponto alusivo à Santíssima Trindade. Além disso, acredita-se que os pescadores das ilhas começaram a usar as camisolas como uma indumentária religiosa de proteção contra os perigosos mares do Atlântico.

 

As camisolas de Aran e os Clãs

 

Confesso que esta é a parte da história que mais me fascina. Talvez por a considerar quase romântica. Cada clã ou família tinha o seu próprio design dos torcidos de Aran que representavam a família. Eram o símbolo do clã. Quando um casal iniciava uma nova família, o novo design juntava os torcidos das duas famílias. Estes padrões foram salvaguardados no seio das famílias e passados de gerações em gerações e, atualmente, ainda existem mais de 130 modelos diferentes. Esta tradição está ainda enraizada na cultura e tradições fazendo das camisolas – ClanAran - um presente de família autêntico, o que acaba por ser um tesouro para as gerações.

 

Ao longo dos anos, começaram a ser desenvolvidos outros pontos, esta tradição atravessou séculos e hoje está mais viva do que nunca. Popularizaram-se globalmente com uma publicação da Vogue Magazine, em 1956. Desde então têm sido inspiração para grandes nomes da moda como John Paul Gaultier. Curioso é que esta peça de vestuário, que inicialmente serviria apenas para guardar do frio rigoroso das ilhas Aran, continua a ser intemporal e ainda neste fall/winter 2015/2016 foi uma forte tendência.

 

Esta história acabou por inspirar o meu novo lema de vida: dêem-nos as agulhas que, com criatividade, tricotamos o nosso destino.

 


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