viver

Empreste-me um olhar

Hélia Saraiva 27.01.2016

Atento e de pescoço inclinado para a expressão do seu interlocutor, empenhou-se a observar aqueles que estavam detrás de si, concentrado nas expressões, nos gestos, nos movimentos e nas suas emoções. Desde o início da sua carreira, que os efeitos dos olhares de uns indivíduos sobre os outros despertavam o seu ímpeto de fotografar os entreolhares. Ocorreu-lhe que esse apreço poderia ser seu aliado na difícil tarefa de compor uma marca do seu trabalho.

Os exercícios realizados na busca da diferenciação abrangiam deslocações quotidianas a espetáculos e a eventos festivos com o objectivo de registar a emotividade presente nos sorrisos, nos aplausos e nos afetos. Estas eram as táticas auto impostas para evitar a estagnação do seu labor de fotógrafo de “memórias de futuro”, como estrategicamente designava o seu ofício, isto é, como captador de fotografias de casamentos. Reconhecia que a sua atividade profissional abarcava rotinas aborrecidas, deprimentes e sonolentas, que o faziam sentir-se improdutivo, porém apressava-se a impedir que a desmotivação o invadisse dizendo para si próprio e para as suas câmaras: - o esforço recompensar-me-á.

No final de um dia de trabalho encaminhou-se para o seu carro cujo pára-brisas acamava diversos flyers. Tirou-os apressadamente, como era habitual, e preparava-se para os colocar na divisória destinada a albergar as guloseimas da sua lareira. Os caracteres prateados de um deles apelavam para um workshop de entrega de alianças destinado a crianças. Decidiu “frequentá-lo” movido pela ideia de registar imagens dos petizes a atuarem como pequenos pajens.

Durante o intervalo da referida formação, vislumbrou uma criança muito magra, cujas pálpebras pestanejantes escondiam uns olhos enormes e irrequietos que fitavam a salva das alianças. O fotógrafo estranhou a escolha do brinquedo e acercou-se-lhe para entender o motivo da sua atenção. Apercebeu-se que consistia na observação dos reflexos das brincadeiras dos seus colegas. O interesse da pequena pelo efeito das movimentações na salva prateada recordou-lhe uma das facetas prazenteiras das suas deambulações, nomeadamente a sua descoberta da expressividade dos olhares dos turistas fotografados durante uma interacção com o Cloud Gate, através do recurso às suas câmaras. A lembrança dos efeitos propiciados pelos reflexos existentes na superfície da peça de Anish Kapoor, desencadearam no fotógrafo uma ideia para sobressair no seu ramo de negócio: paisagens oculares (eyescapes) cativadoras de expressões de amor. Por conseguinte, imprimiu um cunho diferencial na sua actividade - fotografia de casamento -, optando por registar os momentos das consagrações, no reflexo dos olhos dos seus clientes e respectivos convidados.

A obsessão pelas fotografias perfeitas “para mais tarde recordar” pressupõe adereços, gestos ritualísticos, mudanças de cenário, entre outros elementos. Peter Adams-Shawn, o fotógrafo de casamentos australiano, que “influenciou” estas palavras pede somente o seguinte: “Emprestem-me os vossos olhos e eu transformarei o que vêem”.


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