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Sofre, logo importa

Renato Ferreira 05.02.2016

Às sextas, às seis...um livro.

O livro desta semana é sugerido por Hélia Filipe Saraiva.

Sofre, logo importa

Sufre, luego importa: reflexiones éticas sobre los animales é o título de um livro, da autoria de Francisco Lara e Olga Campos, destinado aos leitores interessados em ética e, em particular, a todos aqueles atentos aos direitos dos animais. Esta é uma obra pautada por uma crítica à perspectiva de que os animais são seres passíveis de serem instrumentalizados, segundo critérios utilitaristas, distribuídos por seis capítulos.

No primeiro capítulo surge o argumento de que devemos entender os animais como seres integrantes da comunidade moral. Esta argumentação suscita uma reconceptualização do estatuto moral dada a consideração de que os membros de uma comunidade eram vistos como dotados de capacidade de raciocínio e deliberação. Dito de outro modo, considerava-se que possuíam um certo estatuto moral devido à faculdade de destrinçarem maniqueísmos característicos de um paradigma binocular excludente das espécies não humanas. Esse receio é pulverizado quando percebemos que o critério sustentador dessa decisão não é restrito à fauna, uma vez que abarca crianças e pessoas com disfuncionalidades intelectuais. Esse motivo conduz os autores a defenderem a importância de recusarmos essa lógica em detrimento de outra mais abrangente relacionada com o acautelamento do sofrimento. A abrangência do cumprimento deste princípio estimula a compreensão de que a nossa empatia e ingerência extrapola as fronteiras do antropocentrismo, na medida em que incide na categoria sofrimento e consequentemente nos seres vivos não exclusivamente humanos.

No segundo capítulo é reivindicada a atribuição da sensibilidade além da nossa espécie segundo o raciocínio ligado à existência de animais que identificam, sentem e consequentemente evitam a dor, leva os autores a advogarem que a noção de sofrimento excede a dor física, no sentido da fuga ao medo e à insatisfação.

No capítulo seguinte é-nos indicado que os indivíduos tendem a interpretar a morte sendo negativa devido à interrupção e à impossibilidade de retomarmos os nossos desideratos. O juízo de valor que lhes imputamos é inteiramente integrado na esfera da subjectividade. Portanto esse ponto de vista é aplicável aos animais pelo motivo de que após a morte ficam igualmente destituídos das suas vontades, embora tendamos a pensar que a não planificam nem projectam. Segundo a ótica dos criadores deste livro, os animais abrangidos neste patamar devem ser acolhidos como membros da comunidade moral.

No antepenúltimo capítulo é esclarecida a argumentação sobre os direitos dos animais com a finalidade de assegurar o respeito dos seres entre si e impedir situações que envolvam exploração. Por conseguinte não existem razões, de acordo com os autores, para a inexistência do reconhecimento dos direitos dos seres vivos pertencentes a outras espécies pelos motivos aflorados. Os ensaístas admitem que ainda não é habitual defender que os animais possam usufruir de direitos similares àqueles conquistados pelos seres humanos, todavia é admissível a fruição do direito à vida e à ausência de sofrimento hetero infligido. Nesse sentido, estas questões são debatidas à luz da problemática do vegetarianismo, através de uma apresentação das suas vantagens e das suas desvantagens, finda a qual o leitor é presenteado com uma eventual solução.

No penúltimo capítulo, o narratário depara-se com um dilema hipotético: como atuar perante uma divergência neste campo de acção? A réplica consiste numa avaliação atenta seguida da escolha menos prejudicial, que perpassa pela ponderação sobre uma ética que não esteja fundada numa lógica de hierarquização das espécies.

Finalmente, no capítulo sexto são complexificadas as considerações respeitantes ao ponto de vista da tradição e da artisticidade na tauromaquia, em contraposição com a legislação espanhola atinente à protecção animal.

Aconselho a leitura deste livro a todos aqueles que pretendam inteirar-se sobre o debate em torno das proposta para a qualificação dos animais na categorização do terceiro género, de acordo com um crescente consenso de que a sociedade ocidental deve refletir, nos seus valores éticos, prismas relacionados com o a prevenção do sofrimento e a protecção dos animais.

 

Nota: Aguarda-se a tradução deste livro para a língua portuguesa.


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