viver

A nostalgia russa

Renato Ferreira 12.02.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão desta semana é feita por Rui Estrada (Professor Catedrático na Universidade Fernando Pessoa).

O fim do homem soviético da escritora e jornalista Svetlana Aleksievitch (Porto Editora, 2015) é um livro também sobre os horrores da era soviética: das indizíveis crueldades, das purgas, da pobreza, da alienação. Horrores ditos por testemunhos com vozes cruzadas, tão diferentes, mas todas com um saber dizer extraordinário, cru, poético e sábio.

Mas não é só dessa denúncia que vive o livro. Fala-nos do presente daqueles que viram nascer a era pós-soviética e acreditaram (ou não) em Gorbatchev e Ieltsin, na democracia e na liberdade. Foi uma esperança (para quem chegou a tê-la) que deu lugar a esse desengano que ecoa na voz das testemunhas: afinal o  que há agora é «Um montão de cacos… Um império de nada!» (p. 93). O que há agora são países assolados pela guerra, pela violência, pela corrupção e pelo despotismo. E pior do que isto, para muitas das testemunhas (e talvez a razão deste estado de coisas), é a consciência amarga de um país (Rússia) que foi incapaz de cumprir o seu desígnio de grandeza coletiva. Esta convicção da excecionalidade da Rússia, da «alma russa», perpassa os discursos gravados por Svetlana Aleksievitch. Desde Olga Karímova para quem «A mulher russa nunca teve um homem normal» (p. 210), até às palavras ditas em conversas nas cozinhas, onde se discute a distância entre a «ideia russa» e o «sonho americano»: «Além disso os Russos não querem simplesmente viver, querem viver para um objetivo. Querem participar numa causa grandiosa. No nosso país é mais fácil encontrar um santo do que um homem honesto e bem-sucedido. Leiam a literatura clássica russa…» (p. 285).

É «um tempo de desencanto», como o sintetiza a autora no subtítulo: desengano depois da euforia breve que tão bem nos retrata Alissa Z-er: «E em redor fervilhava uma vida que já não era soviética – uma vida selvagem, louca! Apareceram os primeiro jipes estrangeiros – um encanto! O primeiro McDonald’s na Praça Púchkin… Cosméticos polacos…(…). Dantes tudo era cinzento, e agora havia cores vivas, anúncios vistosos. Queríamos tudo! Podíamos tudo!» (p. 331). É «um tempo de desencanto» para quem nunca acreditou na era pós-soviética, mas sobretudo para quem teve esperança e, afinal, se deparou com o capitalismo selvagem e voraz, porque, como recorda Elena Iurievna, citando Chesterton: «Um homem sem uma utopia é muito mais horrível do que um homem sem nariz…» (p.44). O desengano ecoa em muitos dos testemunhos que constituem este livro, dos quais selecionamos apenas dois: «Não correram para a liberdade, mas para as calças de ganga… para os supermercados… Compraram em embalagens vistosas… Agora também entre nós há muito de tudo nas lojas. Uma abundância. Mas os montes de chouriços e salames não têm nada a ver com a felicidade. Com a glória. Éramos um grande povo! Fizeram de nós  um povo de vendilhões e especuladores… armazenistas e gestores… (p. 50). «E agora? O homem transformou-se num estômago…Numa pança…Quero! Quero! Quero!» (p.253).

Outro dos dramas contado nesta obra, em pungentes relatos, é o das guerras entre regiões e países da anterior URSS, lugares onde a perda da identidade comum soviética incendiou ódios aparentemente inexplicáveis. É precisamente essa perplexidade de quem não entende que transpira do testemunho de Olga V., russa nascida na Abecásia, onde viveu até começar a guerra: «As pessoas andavam nos mesmos autocarros, liam os mesmos livros, viviam no mesmo país e todas aprendiam uma língua: o russo. E agora matam-se umas às outras: o vizinho mata o vizinho, o colega de aula mata o colega. O irmão mata a irmã! Combatem ali mesmo, ao lado da casa…» (p. 231).

O fim do homem soviético é um livro inquietante. Conta o fim da última utopia, da última ideologia e deixa-nos imersos nos mercados a fluírem indomáveis e sem rumo. Será, afinal, um irónico fim da História? Será o fim das utopias? A verdade é que estes testemunhos, que nos surpreendem pela sua beleza literária, não nos abrem portas. Todas se fecham e fica-nos – à humanidade – o eterno paraíso que antes de ser nosso já foi perdido, e fica-nos, quiçá, a nostalgia: «Vai uma pessoa no comboio, olha pela janela, e sente nostalgia. Beleza a toda a volta, não se consegue desviar os olhos, mas as lágrimas correm e não sabemos o que fazer.» (p.431), como diz Iura, o eterno apaixonado, quase no final da obra.

 


Relacionados

Contracapa, página 4

Sugestão do livro "O último dia de um condenado" de Victor Hugo.

Continuar a ler Ana Marinho da Silva   12.11.2018

Manjar dos portugueses

Viajar pela A1, seja em que sentido for, pode ter significados e propósitos vários...

Continuar a ler Duarte Pernes   10.11.2018

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário