viver

Meg, a interessante

Renato Ferreira 26.02.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão desta semana é de Renato Ferreira.

Este livro foi um dos últimos romances que li. Já o acabei de ler há uns meses mas ele continua a estar vivo dentro de mim. Esse será um dos testes que separam os bons livros dos menos bons: o tempo. É ele, o tempo, que permite a criação de clássicos da literatura. Como, infelizmente, não estarei aqui daqui a 100 anos, não consigo prever as obras que serão ainda lidas nessa altura. No entanto, posso, para mim e apenas para mim, associar determinados romances a determinadas alturas da minha vida – quiçá, romanticamente, atribuir a alguns livros a responsabilidade de me ter transportado de uma fase para outra dentro da minha história pessoal.

A tentar fazer este exercício, diria então que “Os Interessantes”, se realmente marcam alguma coisa, marcam a minha passagem da juventude para a meia-idade (uma meia-idade jovem, ainda, e ainda bem…). Este é um livro que, na minha opinião, tem uma vida muito própria, mas que ao mesmo tempo nos permite traçar paralelismos e lançar-nos para uma retrospectiva da nossa própria existência. Meg Wolitzer consegue isso através da utilização de uma base que é comum à maioria das pessoas – um grupo de adolescentes que se junta algures no tempo e no espaço e aí criam vínculos fortes de amizade, e que com o passar dos anos vai continuando essas ligações (em alguns casos de uma maneira mais forte, noutros menos), o que permite um acompanhamento largo das trajectórias pessoais de cada um.

A história anda essencialmente à volta de seis amigos, sendo que a autora acompanha mais de perto o que acontece a - e a perspetiva de - Jules Jacobson. Tal como acontece na vida real, os percursos desses adolescentes vão tomando rumos nem sempre de acordo com as expectativas de cada um deles. Neste romance em particular, há discrepâncias entre os feitos de uns e outros, o que leva a reflexões das personagens que levam inevitavelmente à reflexão de quem lê o livro.

Uma das incursões feitas por Meg Wolitzer no decorrer da história é sobre uma pergunta quase chave para quem, atingida a meia idade, tem (e quer) a necessidade e obrigação de continuar a (re)inventar a sua vida, tendo já um pedaço de história atrás de si que faz com que comparações entre o que se faz e o que se fez surjam naturalmente: deve-se voltar onde já se foi feliz? Quando nos sentimos meio perdidos no actual estado de coisas e temos períodos passados da nossa vida, guardados e a pulular na nossa memória, onde claramente sentimos que fomos mais felizes, devemos nós tentar replicar essas circunstâncias para uma espécie de regresso ao passado? É isso sequer possível?

Ao ler este livro, talvez chegue a alguma conclusão. Ou talvez não. De minha parte, sinto que foi tempo ganho o que passei a saborear a história deste grupo de pessoas que se auto-intitularam de “Os interessantes”. E vou poder, pelos vistos, continuar a saborear… Seguindo Meg Wolitzer no facebook, descobri recentemente que esta obra dará origem a uma série para televisão. Estão na fase dos castings. Tal como nós, por vezes, na vida: de “casting” em “casting” à procura do nosso lugar… 


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Comentários

Inês

26.02.2016

Muito interessante! Deve-se voltar onde já se foi feliz? :)

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