viver

Um hino de amor

Renato Ferreira 18.03.2016

Às sextas, às seis...um livro.

Esta semana, a sugestão é de Isabel Ponce de Leão - Professora Catedrática na Universidade Fernando Pessoa.

Pouco mais de 100 anos depois, olho o Horóscopo de Orpheu: “revela, pouco mais ou menos, o que a vida vê […]. A vida é essencialmente acção, e o que o horóscopo indica é a acção que há na vida do nativo”.

                                                          

Mas “Orpheu acabou, Orpheu continua” afirma Fernando Pessoa e bem, porquanto Desenhos para Pessoa de Fernando Hilário se institua acção, seja ecos dessa revista e desse poeta que mudaram e continuarão a mudar o rumo da arte em Portugal.

                                                                     

E Orpheu é Pessoa essa entidade duplamente literária, consciente da sua complexidade, individualidade de embate de movimentos multímodos. Pessoa que nega a necessidade de ruptura, que a não houve, mas que defende a necessidade de mudança que gere o equilíbrio entre os elementos de ruptura e de continuidade ou melhor dito entre traditio e revolutio.  Pessoa que  desnacionaliza a arte, no desejo que esta acumule “dentro de si todas as partes do mundo”. Estão lançadas as raízes para a “arte-todas-as-artes” e, sibilinamente, num estado de semi-inconsciência, perseguindo o inquestionável binómio Arte / Sociedade, o poeta antecipa a ideia de aldeia global que é hoje a nossa realidade. Não que os outros continentes convirjam nesta Europa mais ou menos decadente que teima em não abandonar o seu jeito de prima dona, mas que todos eles se conluiem, quer material quer intelectualmente, para o progresso da humanidade.

                                                              

 

Fernando Hilário viu e bem esta “arte-todas-as-artes” na concepção de Desenhos para Pessoa onde ensaia a tal “arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintéctica […] [que] em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter uma só regra – ser a síntese de tudo”; trata-se de uma arte que relata a sensação do seu criador “semprocurar ajustá-la à compreensão dos outros, nem subordina-la a qualquer critério estético”.

                                                             

E é sem regras que Fernando Hilário faz uma autêntica declaração de amor à poética pessoana. Demonstrando um conhecimento inigualável da obra, elabora uma recolha antológica em que os traços mais marcantes do ortónimo, do semi-heterónimo e dos heterónimos se presentificam: fingimento poético, fragmentação, dor de pensar, tédio, abulia, cansaço, antimetafísica, objectivismo, epicurismo, estoicismo e fatalismo aqui convivem e seguem, segundo o autor “com alguma desordem uma certa ordem, cronológica e temática”.

                                                             

 

Desenhos para Pessoa, que não são só desenhos, estrutura-se em 7 partes, cada uma delas titulada com passagens do Poeta. Observam-se nos títulos preocupações que se prendem com a fragmentação, com a definição de arte, com a revista Orpheu, com o sensacionismo, com a criação de mitos, ou com reflexos epicuristas que passos da obra pessoana, rigorosamente selecionados, ilustram e justificam.

                                                             

Disse passos e não poemas justamente pela preocupação do autor – que saúdo –, de trazer à memória a, por vezes injustamente deslembrada, prosa pessoana. Destarte são recorrentes passos das Páginas Íntimas e de Autointerpretação, Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas, Excertos de Diário, Cartas de Amor, Páginas de Doutrina Estética, Livro do Desassossego, Páginas de Pensamento Político e muitos outros textos demonstrativos das facetas poliédricas do autor e indicadoras de uma certa forma de leitura da sua obra.

Mas o virtuosismo de Desenhos para Fernando Pessoa vai muito mais longe. Ele reside ainda numa cuidadosa recolha de fac-similes de assinaturas, bilhetes, fotografias, dedicatórias e outros documentos expostos com oportunidade e bom gosto numa composição gráfica policromática que faz com que a obra estabeleça matizados diálogos com os distintos leitores. Seja, presentifica-se uma obra que não tem um público-alvo definido outrossim se torna permeável a leituras várias segundo a enciclopédia cultural do leitor.

 

O belo tem aqui lugar marcado convocando dissemelhantes olhares.

                                                           

Deixei propositadamente para o fim os desenhos. Fernando Hilário parece-me ser, antes de mais, artista plástico ainda que não raro me surpreenda com muito boa poesia. Na presente obra é notório o conluio entre o poeta e o artista plástico. O poeta está na excelência da selecção da obra pessoana – só os poetas entendem bem os poetas; quanto ao artista plástico, desde logo assumido no título, dissemina-se, com mal disfarçada subtileza, ao longo de toda a obra. Inspirando-se na caricatura de Fernando Pessoa da autoria do Mestre Almada Negreiros – uma das pessoas a quem dedica a obra – é notável a forma como Fernando Hilário constrói e desconstrói os diferentes motivos que compõem o macrotexto pictórico impondo-lhes coerência com o texto linguístico que os circunda. Imaginação, seriedade, rigor, servem uma estética minimalista de onde o dramatismo que o próprio Pessoa personifica, não se ausenta. Desta estética minimalista tão só evidencio a reacção a certos dogmas do modernismo e a tentativa de fuga à ênfase pictórica porque tudo o mais apela à imagem espalmada, visualmente estimulante, de sabor expressionista, com faces angulares e geométricas que evidenciam o motivo mais conveniente à situação. Chapéu, óculos, bigode, caneta, mão, copo – Pessoa por metonímia. Depois todo, todos, mais dos que os que são, também os que imaginamos espalham-se longilíneos focados e desfocados, fragmentários, numa superfície só aparentemente plana, demandando ecos e vozes porque “Hoje, não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos”.

                                                            

Pela excelência do grafismo, pelo rigor da selecção textual, pela forma brilhante, virtuosa, sábia como iluminou o texto linguístico, Fernando Hilário conseguiu que Desenhos para Pessoa obedecesse aos seus propósitos: “fosse um corpo que provocasse curiosidade, que activasse o campo das perguntas, que, enfim, se parecesse com a tendência do Poeta para o controverso que transborda tudo, e para o lúdico de brincar com as ideias e com os sentimentos, como um destino supremamente belo”.

 

Supremamente belo! O leitor agradece. Lá em cima, Fernando Pessoa, fá-lo-á, por certo. Um hino de amor.

                                                           

Hilário, Fernando (2016). Desenhos para Pessoa. Aveiro, Edições Adverte. 270Pp 

 

 

 

 

 


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