viver

Ir e voltar (a ler)

Renato Ferreira 25.03.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão desta semana é de Andreia Galhardo - professora na Universidade Fernando Pessoa.

Vai e não voltes tão depressa - Fred Vargas. 

“Cito, longe fugeas et tarde redeas” era o principal conselho dado às populações, sempre que a peste ameaçava as cidades, na Idade Média. Vai e não voltes tão depressa é o título do premiado romance (Prix des Libraires, 2002; Grand Prix Littéraire des Lectices ELLE, 2002) da historiadora, arqueóloga e escritora francesa Fred Vargas (Frédérique Andoin-Rousseau, nascida em Paris em 1957).

Este livro que li há mais de uma década, e agora reli, é uma requintada fonte de prazer, pela riqueza e originalidade da escrita, das personagens tão singulares, do enredo visionário. Estamos em Paris, nos fins do século XX, portanto, já longe das épocas pestíferas que terminaram na Europa Ocidental no século XIX. Ou não?

Um misterioso símbolo aparece pintado em todas as portas dos apartamentos de um prédio, no 18º bairro. Em todas, menos numa. Em grande 4, invertido, o mesmo símbolo que era usado para proteger as casas da peste na Idade Média. Por baixo, três letras: CLT (cito, longe, tarde).

No outro lado da cidade, vive Joss, antigo marinheiro, expulso do mar, após o naufrágio do seu bem-amado barco “Vento Nórdico”, tendo depois abraçado a profissão “deslustrada” de pregoeiro de notícias e “aferentes”, a conselho do seu muito defunto trisavô, numa noite de copos em Montparnasse. “Filho, os homens estão atafulhados de coisas para dizer”.

Joss está perplexo. Há três semanas que recebe textos enigmáticos, depositados, durante a noite, na sua caixa de mensagens “Vento Nórdico II”, para serem lidas nas sessões diárias do Jornal falado, num cruzamento perto da gare de Montparnasse. No fundo da caixa havia o “dizível e o indizível”. O indizível não era lido, “seja por ultrapassar os limites lícitos da violência, ou da audácia, ou, pelo contrário, por não se poder erguer a um nível de interesse que legitimasse a sua existência”.

As enigmáticas mensagens foram lidas, semana após semana, até que investigadores e curiosos mais ou menos letrados descobriram a direcção em que apontavam. Um surto (real) de peste em Paris no ano de 1920 (94 casos, 34 mortes) atingiu a população de trapeiros dos arredores e algumas pessoas da cidade. Pode ter sido provocado em algum dos descendentes, o desejo e a convicção de que deveria e poderia vingar a morte dos seus familiares, provocada pela incúria do governo e autoridades. Um trauma ou fantasma hereditário.

“É uma boa pista. Acresce, no entanto a esse fantasma familiar as perturbações violentas que permitiram que ele se instalasse. Os fantasmas fazem o ninho nas fracturas”, diz um médico a um investigador.

 

A acção do romance segue o seu curso que não devo, nem posso, resumir aqui. É complexa, rica e, por fim, perturbadora. Afinal, a violência existe, mas nada tem a ver com a peste. O “semeador” de tal calamidade é um crédulo ingénuo e manipulado por gente com fortuna que quer ainda mais dinheiro e poder. “O comanditário do suplício e do roubo é um intocável da indústria francesa; há muito dinheiro e reputação nacional em jogo”, desabafa um investigador.


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