viver

Uma pausa

Renato Ferreira 01.04.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão desta semana é de Renato Ferreira.

Entre os escritores vivos espanhóis, tenho dificuldade, dentro daqueles que conheço (não são assim tantos), em escolher entre Enrique Vila-Matas e Javier Marías. Apetece-me dizer: que dupla. O primeiro, que fez anos ontem, é de Barcelona; o segundo é de Madrid e o livro que eu hoje sugiro é dele. O facto de sugerir primeiro um livro de Javier Marías e não um de Enrique Vila-Matas não significa que a minha escolha, entre os dois, vá para o autor de “Os enamoramentos”. Ambos ocupam – e ocuparão - lugares cimeiros - empatados, diria – no que diz respeito à minha atenção em relação à literatura atual do país vizinho.

Escolho este livro porque me encontro atualmente a ler o mais recente trabalho de Javier Marías – “Assim começa o mal”. Não é deste que falarei porque ainda não acabei de o ler e entendo que só faz sentido estar a sugerir livros, nesta rubrica, que tenha lido na totalidade, como é o caso de “Os enamoramentos”. Este livro, a sugestão de hoje, foi eleito o melhor livro do ano pela imprensa literária espanhola no mesmo ano (2011) em que este escritor recebeu o Prémio Literário Europeu pelo conjunto da sua obra. Conta-nos a história de María Dolz que, todos os dias, tomava o pequeno almoço num café de Madrid, entretendo-se a observar com atenção um casal que para ela parecia perfeito. Quando o casal deixou de aparecer nesse café, e quando María Dolz sabe da notícia da morte de um dos membros do casal (o homem), a observadora começa a tomar parte da acção quando resolve apresentar as suas condolências a Luísa (a mulher).

O que, para mim, sobressai na escrita de Javier Marías é a atenção ao pormenor; o longo tempo que por vezes demora determinada “cena” da história para que não falte a transmissão de todos os detalhes que são considerados pertinentes para compor o todo. Esse prolongar e “saborear” de alguns momentos servem para o autor encontrar espaço para os significados aparentemente escondidos na teia incessante da passagem dos acontecimentos.

Assim sendo, a escrita de Javier Marías cumpre o propósito que a literatura pode ter, quando é esse propósito que buscamos nela: a procura de uma pausa quando abrimos um livro. Uma pausa desconstrutora da realidade. Uma pausa que permite que olhemos para o que a seguir vem na nossa vida quase que com outros olhos. Uns olhos mais apurados. Uma visão mais atenta.

Mas é preciso continuar a ler…

Porque de outra forma lá se vai este efeito.

A caminhada tem que ser constante.

Eu acho que vale a pena…

 

(deixo aqui um link para um texto de Javier Marías em que ele aponta sete motivos para não escrevermos um romance e apenas um para o fazermos: 

http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/features/javier-marias-there-are-seven-reasons-not-to-write-novels-and-one-to-write-them-9610725.html )

 


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