viver

O observador de aves

Renato Ferreira 08.04.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão de hoje é de Renato Ferreira:

                      

Escolhi hoje sugerir este livro para ter um motivo para falar sobre autobiografias. Nelas, contamos a nossa vida até então. São muitas as figuras pelas quais temos curiosidade de saber mais. Entender se as experiências de vida explicam, de certa forma, as atitudes e acções que essa figura tomou no exercício do seu trabalho. Trago aqui um exemplo de alguém cujo trabalho é a escrita de romances. Neste caso, e normalmente, a minha curiosidade vai no sentido de tentar descobrir se a ficção – e todas as personagens que determinado escritor cria – está muito longe da realidade vivida por esse autor.

A escrita ficcional pode conter uma extrapolação grande em relação a quem somos. Mas em alguns casos a nossa própria vida pode servir de base ou inspiração para uma história – não só em relação a certos acontecimentos, como também a ligação de certas características pessoais às personagens que fazem parte da história.

Normalmente, antes de comprar um romance, gosto, no caso de ainda não saber, de conhecer minimamente o homem ou a mulher que o escreveu. Como se houvesse uma espécie de namoro inicial para aferir se esse determinado escritor e a sua vida me impelem a gastar (perdendo ou ganhando, depende) horas da minha própria vida num mundo que não existe de facto mas existiu por momentos na cabeça desse alguém. Isto não quer dizer que comece, caso existam, obrigatoriamente, pelas autobiografias dos escritores que leio. Da mesma forma que quase ninguém, enquanto escritor, começa por ela – normalmente ela surge quando existem já algumas obras ficcionais que, de certa forma, justifiquem o ir ao encontro da curiosidade dos leitores já conseguidos escrevendo sobre a própria vida -, eu enquanto leitor também prefiro começar pela ficção e só depois constatar a alguma realidade que uma autobiografia nos pode proporcionar.

Jonathan Franzen, autor do último ‘calhamaço’ (perdoem-me a palavra) que li na totalidade, o “Liberdade”, escreveu também “Correções” e, mais recentemente, “Purity” – dois livros que já comecei a ler mas ainda não acabei. Mas o “Liberdade” levou-me de imediato à leitura deste “A Zona de Desconforto”. Quis saber mais sobre esta figura que, apesar de já ter sido capa da ‘Time’ com o título “O Grande Romancista Americano”, também coleciona críticos, críticas e animosidades aqui e ali – seja pela sua opinião sobre as novas tecnologias ou por outrora não ter gostado de fazer parte de uma certa lista de Oprah Winfrey, só para dar alguns exemplos…

Este livro é uma viagem pela infância, adolescência e inícios de vida adulta deste observador de aves. Aliás, esta característica (a de ele ser um observador de aves) está, na minha mente, associada a quem ele é. Da mesma forma que Paul Auster “também” é realizador de cinema ou Haruki Murakami “também” é corredor. E já que falei, neste texto, também destes dois outros escritores, e porque acho que faz mais sentido lermos uma autobiografia de alguém de quem já conhecemos minimamente a obra, se preferirem podem sempre ler o “Diário de Inverno” e o “Relatório do Interior” do “também” realizador de cinema, ou o “Auto-Retrato do escritor enquanto corredor de fundo” do “também” corredor…

Boas leituras!


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