pensar

Calmo Desespero

Luís Alves 15.04.2016

Bombaim

 

Thane, a cidade de dois milhões de habitantes, onde Chandra e a família viviam, exige esforço de vida. Crescera com pujança, quase ao mesmo ritmo que o primeiro comboio irrompeu na estação homónima, pela primeira vez, num inédito percurso ferroviário, o primeiro do país, e organizou-se como quem se desorganiza.

 

Ali, entre o mar Omã e o estuário Vassai Creek, Thane era para uns um bom exemplo de crescimento suburbano e de coexistência entre cimento e verde, e para outros, apenas uma bolha desregrada, de construção encavalitada, de peças fora do sítio e desequilíbrios vários.

 

Laila sabia de tudo isso mas ignorava essas duas frentes de batalha, de disputa entre políticos locais, entre os que anseiam continuar a demanda e os que querem refrear e repensar Thane. Detestava as gaiolas empoleiradas, como lhes chamava para si e nunca para fora: prédios, verdadeiros arranha-céus, que se não fossem capazes de fazer aquilo que o nome lhes afiança, estariam muito próximo desse objetivo. Construções em altura tal que Laila, apesar de corajosa, sentia-se incapaz de olhar sequer. A compreensão escapara-se-lhe muito para lá daquela conceção de casa. Nascera e vivera numa vila pequena, maior do que uma aldeia mas ainda assim pequena, a umas dezenas largas de quilómetros dali, de Thane. Na casa dos pais, habituara-se a uns palmos de terra, às árvores e à horta. Também aos animais, aos de dentro, de casa, uma meia dúzia de galinhas castanhas e uns frangos de raça branca, e ainda umas poedeiras; e aos de fora, aqueles que passavam com regularidade defronte ao muro da vivenda modesta, caiado de branco, uns bois amiúde e, com mais frequência, umas ovelhas e umas cabras, de quem só via, do vidro da porta da frente, a cabeça e, nos machos, a cabeça e os cornos.

 

Naquela manhã, ainda madrugada, Laila quase recuava na sua coragem férrea. Estava na cozinha, o relógio marcava pouco mais do que as cinco e trinta. Ao olhar para aquelas torres implacáveis, conquistadoras de um espaço que gostava de ver térreo, liso como uma praia, assaltavam-lhe memórias de uma infância mais doce, acima de tudo, mais fácil. A coragem é assim, para tudo e para todos: como um gráfico numa bolsa de valores, que uns dias desce, outros sobe, oscilando à mercê da confiança dos investidores e credores, quais figuras do desconhecido. Laila, a umas horas de visitar Harpreet no hospital, estava naquilo que os corretores chamam de mínimo histórico. Para isso, contribuíam Chandra, incapaz de compreender o melhor caminho; uma família demasiado grande, feliz, sim, mas demasiado grande, com responsabilidades multiplicadas vezes sem conta; uma cidade onde Laila não cabia; e, mais importante ainda, a recém-descoberta condição do filho mais velho.

 

A chefe da família tornara-se - ao princípio devagar e com engenho, depois com rapidez e argúcia - aquilo a que os gestores e outra gente que organiza a vida em folhas de cálculo chamam de meritocrata. Uma partidária, portanto, dessa ciência que celebra a igualdade de oportunidades, na linha de partida, e que festeja com os que cortam a meta em primeiro lugar, com o esforço devido que a prova exige. Era, de resto, uma das virtudes mais apontadas e elogiadas por Chandra, que talvez assim garantia ter por perto uma qualidade que ele próprio sabia faltar-lhe grandemente. Laila não era de modéstias falsas e, ainda que por vezes envergonhadamente, reconhecia a si mesmo uma apetência para conseguir atingir os objetivos a que se propunha, com mais ou menos esforço, com mais ou menos trabalho.

Naquela manhã, já quase a tocar as seis, Laila, apesar de elevada num banco de pernas altas, puxado da mesa, encostado à parede da cozinha e apontado para a janela maior, parecia descer a um poço de desânimo. Um abandono dela própria, um corpo ali prostrado, sem fim nem meio. A vista não ajudava: a entropia estocada em cada varanda, do prédio vizinho, viradas marquises; plantas murchas de sede, em floreiras penduradas; bicicletas e triciclos suspensos por uma roda, nos cantos das estruturas envidraçadas; vassouras e esfregonas, várias, dispostas de várias formas, e todas igualmente sujas; roupa gasta e desbotada a secar aos primeiros raios da manhã; homens e mulheres de rosto anónimo, reclinados nas janelas, talvez a ensaiar o último ato, mas por agora apenas a fumar sem alma, a cerrar os olhos enquanto puxam pelo cigarro e a esquivar-se do fumo que o vento soçobra a bel-prazer.

 

Laila sente-se, talvez pela primeira vez em décadas, uma daqueles. Durante esse tempo, usara-os como exemplo do que não queria ser, do que não queria seguir. A tristeza, o lamento, a inação e a desvontade viviam ali, do outro lado da rua. Ao acordar naquele dia, e ainda em jejum, Laila viu-se também assim, o que a surpreendia.

 

Adrika acordara há minutos, um pouco depois das seis.

- Mãe, preparas-me as torradas? - perguntou a filha.

 

Laila mantinha-se de costas e, alheada deste mundo e talvez de uns tantos outros, não notara sequer a entrada da jovem.

 

- Já estas acordada? Que horas são? - respondeu a mãe, que logo começou a tirar o pão do saco, com a mesma energia que fazia mover aquela casa. Um desânimo, afinal, como um boomerang, que vai e vem, e que no caso desta indiana de meia-idade era quase sempre um vai. Bastou um pedido de um filho, trivial e doméstico, para que Laila despertasse.

 

Haviam combinado na noite anterior, já depois de Chandra se deitar, que iriam visitar Harpreet ao Hospital Jupiter. Apenas Adrika não estaria arredada de visitar o irmão mais velho. Todos os outros manter-se-iam assim.

 

O aparato hospitalar é um carrossel de maquinaria; de pi-pi-pi sonoros, provindos de onde não se sabe; de macas num rali de urgências; de humanos vestidos como crianças num colégio de gente de bem, batas corridas, uniformes, de cor única; de materiais frios e feios, de aço; de azulejo sujo; e de um cheiro padrão, irrepetível em sítio algum.

 

O Jupiter podia ser tudo isto, mas não era nada disto. Aliás, dizia-se, entre pacientes e visitantes, que há hotéis na cidade que coram ao olhar para este edifício, branco pálido e polido, rasgado por janelas em número grande, umas mais longitudinais, outras mais quadradas e modestas.

 

Adrika e Laila demoraram pouco mais de dez minutos na viagem que as trouxe de casa até ali, à entrada frondosa do hospital, onde uma fonte de água subia vagarosamente para descer com rapidez até a um lago, rodeado de vegetação baixa.

 

- Bom dia. - disse-lhes a rececionista, sentada ao centro do lobby, espaçoso e respirável. A indumentária dos trabalhadores deste edifício dizia muito sobre a instituição onde o filho de Laila havia passado as últimas horas. A jovem, não mais de 30 anos, tinha o cabelo, castanho dourado, apanhado por um gancho sublime, que emprestava o protagonismo a um rosto de pele muito clara e lisa, sem ruga alguma, uns ol, ora azuis céu, esgueirava-se por entre umas calças escuras. A postura era a mais correta, costas impecavelmente direitas. Ao lado, uma meia dúzia mais de cadeiras e respetivos computadores e secretárias de madeira clara, que tomavam a forma circular daquele móvel grande, ali plantado no centro do piso zero, que recebia quem entrava por aquela grande porta automática e pela cortina de calor violentamente cuspida por um aparelho nada ruidoso.

 

- Bom dia. Vimos fazer uma visita à Ala 40B. Podemos subir? - perguntou, ansiosa, Laila.

 

- Lamento, mas ainda não – respondeu-lhes a funcionária. - Faltam 15 minutos para a hora das visitas. Aguardem um pouco ali nos sofás e já vos chamo – sugeriu, apontando para um canto, junto a uns vasos grandes, com umas canas majestosas, talvez de bambu.

 

- Obrigado! - respondeu Adrika, que partilhava a ansiedade da mãe, talvez por saberem estar perto de Harpreet mas ainda assim terem de esperar algum tempo para que o possam ver.

 

Apesar de cedo, o hospital era já um destino de muitas pessoas, que entravam com um ar mais ou menos ofegante. A Adrika, impressionava-a particularmente aquela oportunidade de pensar in loco aquilo que imaginara-a tantas vezes, em casa: quando estamos à mesa, ou quando estamos no sofá, a um domingo, com toda a família e amigos, com aqueles que determinam a vida que temos, não imaginamos que os outros sete mil milhões de habitantes deste mundo possam estar de outra forma. Que possam estar tristes, que possam estar a ser cruzados por uma tragédia, por um acidente, que dizime uma família inteira ou, pior, uma família inteira menos um. Os 15 anos de Adrika não chegavam para esta coabitação de realidades, ainda que aqueles minutos na entrada do Jupiter estivessem a dar uma ajuda. Aquele frenesim, afinal, não seria só naquela dia ou naquela hora. Deveria ser constante e, portanto, o bem-estar de uns convive alarvemente com a hecatombe de outros.

 

- Laila! Tão cedo por aqui. - disse o Dr. Dhanesh, que vinha já de bata vestida da cafetaria, do outro lado dos sofás, onde os visitantes aguardavam. O médico que agora acompanhava ainda mais de perto Harpreet era estrondoso. A simpatia e o profissionalismo eram exuberantes mas a humanidade emanava-lhe um outro sentido a ambas as qualidades. - Subam comigo. Eu vou buscar as credenciais para vocês. - disse-lhes.

Adrika, que interrompera aquele embate com a realidade do mundo, recuperara em parte a esperança ao acompanhar aqueles segundos de atenção do Dr. Dhanesh à mãe e a ela própria. Pensava que aquela receção quase a fez esquecer que estava prestes a visitar um irmão a quem podia acontecer o mesmo que àquelas pobres pessoas que vira na Internet, com membros cortados, por uma doença de que só conhece o nome.

 

Chegados à Ala, onde partilhavam espaço os doentes de ortopedia - os crónicos e os dos cuidados intensivos -, Laila, Adrika e até mesmo o Dr. Dhanesh suspenderam o movimento, quase como se tivesse encontrado uma parede translúcida.

 

Na sala, ampla e irradiada pela luz intensa daquela manhã, Harpreet estava de aspeto visivelmente mais brilhante, menos pálido. Não fosse a bata que vestia, e que não o distinguia dos outros pacientes, e parecia apenas um auxiliar de enfermagem ou um outro profissional saudável que ali estava a fazer trabalhos. De costas para a janela grande, ao meio da sala, circundavam-no umas oito ou dez pessoas, sentadas, mais novas e mais velhas do que ele. O irmão de Adrika segurava, de pé, um livro grande de história, de capa dura e castanha, com umas letras douradas. Com uma energia entusiasmante olhava um por um e gesticulava, enquanto lia passagens que se percebiam ser de história helénica, de como o teatro enquanto arte suprema havia sido fundado na Grécia e referia-se a Delfos e ao Oráculo.

 

Ninguém daquela Ala havia notado a presença daquelas três pessoas recém-chegadas, e assim tudo se mantinha. Harpreet como um professor alimentado pelo entusiasmo do conhecimento; Adrika a olhar para um quase ídolo; Laila com os olhos já em lágrimas e sorriso incandescente; e o Dr. Dhanesh, feliz, e definitivamente seguro da escolha que fez, ao regressar de Londres no fim do curso.

 

Calmo Desespero (Versão integral... so far): https://www.drive.google.com/folderview?id=0B-rp-Oba2XUKfjZqb0lELTQ5SFJKd09CcERyU25sMGpvSmt2bU4tVFZWZGFaRFV2MmNzOXM&usp=sharing

 


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