viver

A bolha

Ana Marinho da Silva 17.04.2016

Estive adormecida do mundo ou o mundo esteve adormecido de mim. Vi-me perdida num futuro indesejado e acabei por me encontrar num Alentejo de ternuras. Sou tão jovem e sentia-me tão velha. Ir para a terra das terras quentes fez todo o sentido.

O silêncio.

E a melodia de fundo composta por cigarras e grilos, amadureceu o pensamento efêmero de juventude eterna.

Inocente. Não me reconhecia em lado nenhum sem ser na água distorcida. E acabou por ser a água a minha catarse. Depois de a terra quente me ter feito refletir, do vento me ter feito meditar e do fogo me ter feito sofrer.

Os elementos uniram-se numa conspiração cíclica. Sempre que me queimasse, a terra acalmaria a minha dor, o vento iria afasta-la e a água purificaria-me.

Mas antes de encontrar a cura no Alentejo, vivi num mundo sem elementos. Uma bolha escura onde nada se passava, onde tudo estava morto.

E eu estava lá, viva?

Nunca.

Não existiam sentimentos, não haviam movimentos. A minha corrente sanguínea continuava, mas nem isso eu sentia. Num mundo daqueles, só me questionava: Como nos encontramos quando não somos nada e não temos nada? E, de repente, descobri a resposta.

Desistindo.

Quando caí no chão frio, a bolha tremeu. Despertando em mim o movimento esquecido.

"Será que há mais?" - Então caí e continuei a cair, para sentir o meu temor pelo tremor.

Eu, sentia, algo.

Com o continuar das repetitivas quedas, a bolha começou a girar e seguiu a primeira lei de Newton.

[Se um corpo está em repouso ele irá permanecer nesse estado até que uma força externa seja aplicada nesse corpo. Por inércia, um corpo que está em movimento tende a continuar em movimento.]

Foi aí que o fogo apareceu. A bolha começou a arder e eu tinha dificuldades em respirar. Sangrava. E a bolha não parava. Até que no extremo da minha sobrevivência, a bolha embateu numa árvore de terras alentejanas e partiu.

Uma rajada de vento arrefeceu o meu corpo, seguido de uma brisa contínua para me manter a uma temperatura estável.

Chorei.

Conseguia sentir as feridas a arder e isso, para mim, era uma conquista. Toquei nas rugosidades da árvore, inspirei os aromas do vento e sorri.

Sentia agora as pingas. Começou a chover. Percebi que me tinha libertado da bolha. Nada partido se encontrava ao redor da árvore. Era só eu e um imenso e vasto terreno de verdes e castanhos. 

Estava livre.

Depois de um tempo sem tempo naquele mundo perdido, jamais voltei a ser a mesma.

Percorri os campos verdes sozinha, num momento de introspeção, de reconhecimento interior. Aqui não estava perdida, eu sabia-o. Ao fundo avistei um lago, cuja água revoltada pela chuva desenhou o meu corpo. Sem feridas. Sem dor.

Sentia-me diferente. Eu estava diferente. Tinha a certeza.

Abominei a escuridão e aprendi a amar a luz. Sobrevivi sem sensações e, agora, vivo cem emoções.

Só sabe o que é sofrer quem já esteve na bolha. Todos os outros fingem saber o que é a felicidade, sem nunca se aperceberem do que é realmente importante. A esses quero dizer-vos: parem. Acabem com essa ilusão, procurem-se, encontrem-se e sejam realmente felizes. Fujam da bolha que vos persegue e se algum dia ela vos apanhar, façam como eu: caíam e criem de novo o movimento perdido. Quando derem por vocês estão na terra quente, onde todos os males (e tudo o que vos rodeia de negativo) ficam em off e a vossa felicidade ganha forma.

Alentejo, terra quente de paixões platónicas, de sabores fortes, de esperanças vastas (e um pouco gastas), de acolhimentos doces... ensinaste-me o que é sentir e por isso me sinto grata.


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