viver

Sir Fernando Pessoa

Renato Ferreira 29.04.2016

Às sextas, às seis...um livro.

Esta semana, a sugestão é de Isabel Ponce de Leão - Professora Catedrática na Universidade Fernando Pessoa.

Entre o real e a ficção

Depois de Sir Fernando Pessoa, o relógio de bolso que esconde uma história (2015) e perseguindo uma anunciada trilogia, Maria Antónia Jardim surge agora com Sir Fernando Pessoa e o Arcano de Óbidos que mantém com o seu antecessor uma coerência intrínseca quer a nível de personagens – Mary e Fernando Pessoa – quer a nível do imperturbável mergulho mantido no mundo dos mistérios.

De facto as linhas matriciais do presente volume são concomitantemente as de toda a obra de Maria Antónia Jardim. Nela se cede a primazia ao domínio das ciências ocultas, ao eterno feminino bem como à capacidade de desdobramento que permite à autora e / ou às suas personagens outrar (em)-se noutras personae e noutros meios. Digo e / ou por me parecer que Sir Fernando Pessoa e o Arcano de Óbidos postulando-se embora no âmbito da ficção, vive amplamente da experiência autoral e de uma certa vivência tendente ao autobiografismo.

No prefácio que lhe apõe, Annabela Rita aplica e bem o epíteto de “divertissement ficcional”. De facto, o jogo, tal como o determina Derrida ao observar a instabilidade de significações lexicais, é aqui recorrente, como recorrente é a alteração sígnica nos seus encontros e desencontros. Pela liberdade que o jogo confere, pela criação e recriação de sentido, não há uma fixação interpretativa o que confere a Sir Fernando Pessoa uma hermenêutica vivaz. Atenta a Gadamer sei, contudo, que o jogo se joga entre o eu e o tu, reivindica interpretação, movimento, exibição, espectáculo, seja, enforma a dimensão icónica da humanidade. Daí o movimento de avanços e recuos, permissivo a anacronias temporais recorrentemente observáveis. Daí também o tom metafórico do sujeito e dos objectos bem como da sua abertura relacional ao mundo em feições criativas e policromáticas.

A metáfora em Maria Antónia Jardim é, essencialmente, a ponta do iceberg criativo erigido pela confluência e complementaridade entre a literatura e a pintura. Metáfora que é, ela mesma, o próprio jogo que domina a consciência do jogador abandonado ao movimento lúdico.

Mary e Fernando Pessoa são jogados e participam num mundo lúdico assaz diferente do quotidiano de que também são espectadores corroborando num enredado relacional possível mas inédito. A ideia de jogo sustenta o movimento lúdico que opta pela auto e hétero-apresentação perseguindo uma figuração simbólica próxima da ideia de linguagem. O ludismo surge aqui como uma suspensão do quotidiano sem, contudo, o dispensar. Assim se aliam vida e arte num projecto de auto-compreensão que recusa, tal como Gadamer prevê, a opacidade e a neutralidade.

Maria Antónia Jardim reabilita a dimensão lúdico-metafórica da linguagem enquanto fio condutor de acesso a uma verdade que obstaculiza o automatismo abrindo para uma experiência de relação e de intelecção.

A este prazer que se extrai do texto chamou Barthes jouissance referindo-se à sua essência criativa, ao acto de escrita e à própria escrita produzida numa espécie de climax sexual vulgarmente denominado têxtase pela sua literariedade ainda que dependente do livre arbítrio do leitor.

Permito-me juntar a terminologia usada por Annabela Rita –  divertissement –, por Barthes –  jouissance –, por Derrida – jogo – e por Gadamer – ludismo –, para constatar que o verdadeiro prazer que Sir Fernando Pessoa propicia vai além do mero acto de leitura reclamando do leitor um enorme investimento emocional  erigido para além dos limites do prazer. 

O referido investimento faz-se ainda no domínio de um fantástico que trai o cânone pois, não pospondo o metaempírico despreza o sobrenatural maléfico acalentando a verosimilhança. Naturalmente que a ambiguidade, o dubitativo e a perplexidade mantêm-se assegurando o pacto de coexistência entre as diferentes personae.

Destarte tudo na obra se organiza e articula em função de um objectivo único: criar, conduzir e fazer perdurar até ao fim a ambivalência fomentadora da matriz fantástica.

Maria Antónia Jardim, jogando com o verosímil, trai as convenções do género, e faz com que o texto criado se erija máscara dos seus próprios planos e objectivos. Assim reivindica a credulidade para o insólito da história e, jogando com o leitor, torna-o num céptico convencido responsabilizando-o pela avaliação da história.

Na arena se jogam real e ficção que, de per si, erigem um mundo onde sonho e realidade também se mesclam. O que existe e o que se imagina existir compõem mais um caso de amor à obra de um dos maiores poetas portugueses e, porventura, reabilitam a sua faceta mais humana através de aturada investigação.

Pessoa tem dado, dá e continuará a dar para tudo. Já alguém o considerou o homem mais complexo que jamais existiu, o que seria verdade se uma tal afirmação pudesse, algum a vez, ser verdade. Mas foi talvez o homem que, de forma mais explícita e programática, mais se apresentou complexo e assumiu, quase pedagogicamente, essa complexidade.

Maria Antónia Jardim entendeu descomplicar Pessoa, isentá-lo de paroxismos de intensidade e explicitações. Pode fazê-lo porque, estudando-o aturadamente e disso dando conta no 1.º livro da trilogia sem se vergar a academismos bacocos, entendeu o poeta e pôde lançar-se no estudo do homem.

Mary, dona da narrativa, porventura duplo de pessoa, sabe que o amor é elemento salvífico e, convocando Eros, demanda a fusão dos corpos na fusão das almas.

Borges, Kafka Marquez, Cortázar, já uma vez o escrevi, são modelos da autora de Sir Fernando Pessoa  na técnica usada aquando da recriação de um realidade que não posterga a ficção antes ensaia o seu conluio para as emergir num mundo fantástico em que o erotismo assume papel primaz.

Tudo pela arte, num ecumenismo prático de espíritos iluminados. Tudo pela obra pessoana que Maria Antónia Jardim tenta a cada passo trazer para o mundo dos terráqueos para, de igual para igual, se confrontar com a sua obra.

Ler Sir Fernando Pessoa e o Arcano de Óbidos é encontrar motivação e fio condutor para um estudo profundo da obra de Pessoa; é ver que a realidade da vida se oferece em feição metafórica em jogos de subentendidos. Por isso a jouissance, o divertissement, o jogo, o ludismo. A liberdade criativa que mais que nunca é indispensável quer na feitura quer na abordagem da arte – e de arte se trata nesta cuidada e policromática edição da Lápis Lázulis em que a autora de expõe em várias linguagens.


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