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Kl

Renato Ferreira 19.08.2016

Às sextas, às seis...um livro.

O pontapé de saída desta "segunda temporada" desta rubrica de livros do site rjp é dado por Rui Estrada - Professor Catedrático na Universidade Fernando Pessoa.

A sugestão desta semana é o livro "KL - A História dos Campos de Concentração Nazis" de Nikolaus Wachsmann.

Nikolaus Wachsmann publicou uma imensa obra sobre os campos de concentração no período nazi. Intitulado KL A História dos Campos de Concentração Nazis (D. Quixote, 2015), este livro, como o próprio autor indica logo no ‘Prólogo’, parte de duas abordagens: por um lado, a descrição do microcosmos dos campos, através de testemunhos de pessoas que os administraram ou que neles sofreram; por outro, a análise, mais genérica, do curso do Terceiro Reich e a forma como esse trajecto foi por sua vez moldando e alterando a dinâmica e o desígnio dos KL.

            São justamente estas duas perspectivas que nos dão a impressionante e detalhadíssima história infame dos campos nazis.

            Vejamos o caso da primeira, que tem a particularidade de dar voz a carrascos, guardas SS, vítimas, dirigentes e até população em geral. Eis alguns exemplos:

            Goebbels: “O ódio do Führer aos judeus não diminuiu, aumentou…Onde quer que lhes conseguirmos deitar as mãos, não vão escapar à retaliação.” (pp. 487/488)

            Himmler: “Tínhamos o direito moral, tínhamos o dever para com o nosso povo, de matar esta gente que nos queria matar.” (p.385)

            Höss: “Outro melhoramento que fizemos em relação a Treblinka foi termos construído as nossas câmaras de gás [em Auschwitz] com capacidade para 2000 pessoas de cada vez.” (p. 335)

            Guarda SS: “Bem, eles não se calaram. Protestaram, alguns aproximaram-se de nós de punho erguido. E gritavam “porcos nazis”. Não se podia realmente culpá-los, se calhar nós teríamos feito a mesma coisa se fôssemos levar com uma bala na nuca.” (p. 341)

            Oficial SS: “Para aliviar o campo, é necessário remover os simplórios, os idiotas, os aleijados e os doentes o mais rapidamente possível através da liquidação.” (p. 356)

            Veterano SS que obrigou um preso a cortar os testículos a um cadáver e a comê-los com sal e pimenta: “Só queria saber se era possível fazer aquilo.” (p. 482)

            Recluso destacado para o Sonderkommando de Auschwitz: “Como um cadáver ambulante, tive de fazer coisas horríveis.” (p. 359)

            Outro recluso de um Sonderkommando: “E a verdade é que queremos viver a qualquer custo, queremos viver porque estamos vivos, porque o mundo inteiro está vivo.” (p. 362)

            Um Kapo para os detidos: “Vocês não estão aqui para se divertirem, aliás, vão ficar todos arruinados e vão sair pela chaminé.” (pp. 355/356)

            Outro Kapo: “A minha participação consistia em pôr a corda ao pescoço dos reclusos.” (p. 522)

            Kapo médica: “Devo ajudar uma mãe com muitos filhos ou uma rapariguinha que ainda tem a vida toda à sua frente?” (p. 534)

            Detida: “Chorei a noite inteira, caí aos pés do assassino e beijei-lhe as botas, pedi-lhe para não me tirar a minha filha, mas de nada serviu.” (p. 367)

            Detido (Primo Levi): “aquela fome crónica que os homens livres desconhecem, que nos faz sonhar à noite e se instala em todos os nossos membros.” (p. 355)

            Detido: “Às vezes, quando eu me punha a pensar nos cuidados extremosos que os carrascos da Gestapo prodigalizavam aos canteiros [do campo], julgava que ia dar em maluco.” (p. 220)

            Detida: “Primeiro, morreram as crianças. Choravam dia e noite por pão; morreram rapidamente de fome.” (p. 471)

            Detida: “Em última análise, só estou viva porque de momento ninguém me quer matar.” (p. 488)

            Detido: “Estávamos tesos de imundície e terrivelmente cobertos de piolhos.” (p. 481)

            Alemão comum sobre os presos dos campos: “Para mim, o melhor é não ouvir nada nem ver nada.” (p. 498)

            Judeus nos duches: “Não gás! Não gás!” (p. 456)

            No que diz respeito à segunda perspectiva, Wachsmann demonstra que os Konzentrationslager foram servindo diferentes propósitos à luz dos diferentes momentos do regime nazi. Genericamente os campos, nas suas diversas etapas, foram instrumentos de “repressão ilegal” do Terceiro Reich. É contrariada assim a tese, popularmente assumida, de que foram apenas campos de genocídio.

            Mesmo nas últimas linhas do livro, Wachsmann explica as fases dos campos, recorrendo à figura sinistramente emblemática de Rudolf Höss, comandante do campo de Auschwitz (a “capital do Holocausto”), que foi enforcado nesse mesmo KL em 1947: “(…) Rudolf Höss, um homem que aprendeu a maltratar os presos em Dachau, no princípio do Terceiro Reich, que se formou no extermínio sistemático em Sachsenhausen, no início da guerra, que transitou para o genocídio em Auschwitz e que depois supervisionou a chacina final de Ravensbrück.” (p. 634)


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