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Conhecer para prevenir

Renato Ferreira 26.08.2016

Às sextas, às seis...um livro.

Hoje a sugestão é feita por Marcos Taipa Ribeiro - Adjunto do Diretor do EP Porto.

 "Drogas - Conhecer para prevenir". Autor: Carlos Filipe Saraiva. 

A cadeia enquanto dispositivo de controle social encarna e reproduz a realidade social externa a si mesma. A realidade filtrada, selecionada e não uma realidade qualquer. A realidade selecionada porque do desvio esta se faz, produz e reproduz. Mas o desvio também se faz de seleção dos sujeitos, de etiquetagem, de estigma, de quebra de laços sociais, de psicopatologia, de identidades desqualificadas e perturbadas, de processos de socialização desqualificantes. De subculturas emersas na desqualificação e alimentadas por esta, de edificações de um “eu” “enviesado”. De tudo isto se faz a clientela deste dispositivo. Mas faz-se também, e especificamente, da relação droga-crime, de resto tão bem investigada pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto entre o final do sec. XX e inícios do presente século.
É na metaprisão que o autor nos quer fazer adentrar: A prisão da prisão e a prisão das drogas. Mas é também da prisão das drogas e até da outra – quando estas surgem imbricadas – que o autor nos pretende libertar condicionalmente e se possível, contribuir para que nem sequer a venhamos a conhecer. E qual a melhor forma de contribuir para esta empreitada? Passar o testemunho de uma experiência feita de honesto estudo.
Se é verdade científica que nem só de informação se faz a prevenção, não é menos verdade que esta é uma componente crucial ao nível da tomada de decisão, logo o autor não foge à sua explanação, sem nunca cair em lugares-comuns que alimentem o “pânico moral” e o “terror interventivo”, mas antes optando por mensagens cientificamente informadas. Os conceitos que devem assistir a interpretação de fenómeno tão complexo estão lá. O enquadramento histórico e a sua problematização fazem parte do início do livro e a necessária e imprescindível descrição e interpretação das substâncias e dos seus efeitos bio-psico-sociais ocupam o primeiro ¼ da obra: as drogas de paz, as drogas de festas, as drogas de energias, as velhas drogas e as novas drogas e as drogas dos “costumes”, numa relação de interdependência entre sujeito, droga e contexto. E eis que o autor chega à realidade da cadeia. E aqui, a partir da relação entre o seu saber e o saber-fazer, analisa o impacto da droga na população reclusa e da população reclusa consumidora na cadeia. Fazendo lembrar Luís Fernandes e a sua eloquente análise quando este se dedica a analisar o que a cadeia fez à droga e o que esta fez à cadeia. Mas também explana as respostas, na primeira pessoa, que a prisão tem vindo a desenvolver para responder a esta problemática. E na primeira pessoa porque é ator principal das mesmas.
Cerca do último ¼ do livro permite, de certa forma, desconstruir todo o conteúdo anterior mas também permitirá aos leitores, em particular aqueles que são pais, “respirarem de alivio”. Depois de uma leitura que se espera desconcertante, até destruturante, esta última parte pretende assumir-se como estruturante via ação. Ela dá-nos ferramentas para agir sem nunca abandonar o rigor científico que esteve presente nos capítulos anteriores. 
Concluindo, estamos perante uma obra que se assume como uma honesta análise feita de experiência comprovada.

Marcos Taipa Ribeiro. 


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