viver

Sem notícias de Gurb

Renato Ferreira 16.09.2016

Às sextas, às seis...um livro.

A sugestão de hoje é de Hélia Filipe Saraiva.

"Sem notícias de Gurb" - um livro de Eduardo Mendoza.

Os eventos desportivos de grande envergadura como os Mundiais e os Jogos Olímpicos requerem infraestruturas, como estádios e estradas, cujas obras tendem a alterar a topografia e o cenário da cidade acolhedora. A intensidade da estranheza dos efeitos causados por essas mudanças, durante as obras realizadas no período que antecedeu a organização das Olimpíadas de Barcelona, influenciaram Eduardo Mendoza a escrever um livro de ficção científica. O seu livro parodia simultaneamente a desorganização ocorrida na metrópole durante os referidos preparativos e o próprio género ficcional, mediante o calibre das peripécias vivenciadas por um personagem extraterrestre recém-chegado a Barcelona.

Sem notícias de Gurb é o título de um livro hilariante redigido pelo autor da A cidade dos Prodígios, segundo a ótica de um comandante alienígena que percorre o alvoroço da Barcelona pré-Olímpica com o objetivo de encontrar o seu companheiro de missões intergaláticas, Gurb, depois de ter saído da nave avariada com o objetivo de encontrar um elemento que revertesse o desarranjo. O seu afastamento demorado leva o comandante a auto incumbir-se de ir ao seu encalço, o que não constitui uma tarefa fácil. As dificuldades radicam em dois pontos: o facto de o protagonista estranhar a nossa organização social; e de, num segundo ponto, tanto ele como o seu companheiro possuírem a faculdade da metamorfose - quais camaleões - em figuras públicas. Essa capacidade complica, numa primeira análise, o reconhecimento mútuo e suscita, numa segunda análise, embaraços devido ao desconhecimento dos códigos de conduta dos terráqueos.

 As suas experiências são descritas num diário, em tom informal e bem humorado, onde nos é revelado o olhar ingénuo do comandante alienígena sobre a sociedade, contribuindo para envolver o leitor na (in)verosimilhança dos seus relatos e, concomitantemente, aludir ao conto de Voltaire intitulado Micromégas. No qual nos é narrada a aventura de dois extraterrestres (Micromégas e o seu acompanhante) durante a respetiva deslocação à Terra. A mencionada estratégia permite que sejamos surpreendidos pelo choque com uma realidade diferente daquela que temos como referente, a fim de repensarmos a assimilação inquestionada dos pequenos dogmas do quotidiano com quais nos vamos anestesicamente habituando.

Este livro convida-nos a lançarmos um olhar crítico sobre muitas das nossas rotinas e regras e, concomitantemente, leva-nos a soltarmos algumas gargalhadas aquando a nossa identificação com os pontos de vista do alienígena.

Deixo-vos um excerto (traduzido por mim), em jeito de aperitivo:

“17.23 Desloco-me para a cidade de transporte público denominado Caminho de ferro da Generalitat. Ao contrário de outros seres vivos (por exemplo, o besouro do repolho), que se deslocam sempre da mesma forma, os seres humanos usam uma variedade de meios de locomoção, os quais competem uns com os outros em lentidão, desconforto e em mau cheiro, embora nesta última secção muitas vezes os vencedores são os seus e os [habitáculos] de alguns táxis. O metro, como o chamam, é usado maioritariamente por fumadores; o autocarro por pessoas, geralmente idosos, que apreciam cambalhotas. Para as distâncias mais longas existem os chamados aviões, uma espécie de autocarros cuja impulsão ocorre através da expulsão de ar dos pneus. De esta forma atingem as camadas inferiores da atmosfera, onde se sustentam por intermédio da ação do santo cujo nome aparece na fuselagem (Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio de Loyola, etc.).” (Mendoza, 1991:38)


Relacionados

O podcast do Renato 3

Episódio nº 3 d'O podcast do Renato

Continuar a ler Renato Ferreira   20.09.2018

Acordos e resultados

Angola e Portugal procuram novos acordos. Falta depois apurar os novos resultados...

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   18.09.2018

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário