viver

Poemas Canhotos

Renato Ferreira 23.09.2016

Às sextas, às seis...um livro.

Hoje a sugestão parte de Orfeu Bertolami (Físico; Professor Catedrático no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto). Este texto foi publicado no blog '7leitores' no dia 6 de junho de 2015.

Poemas Canhotos

em boa verdade houve tempo em que tive uma

                                 ou duas artes poéticas,

agora não tenho nada:

sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica

                                   e traço meia dúzia de linhas:

às vezes apenas duas ou três linhas;

outras, vinte ou trinta:

houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei

                      a encher umas quantas páginas do caderno

aconteceu também por vezes que o papel pareceu

                                                        estremecer,

mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse

                                        sob as minhas palavras escritas,

o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:

enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,

e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,

sabia que estava tudo feito,

sentia que deveria morrer

mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a

                                                 sua própria profundidade

 

Herberto Helder 

 

O mais simples é possivelmente o mais inacessível. Tornar com que umas poucas linhas façam mais sentido que todas as linhas que as antecederam. Entender que a profundidade é capturar a rasura dos dias e emprestar-lhes um significado até o derradeiro momento. Encerrar a obra no ponto verdadeiramente final.

Agora o poeta não voltará a escrever, a obra está concluída e reverbera na mente dos sonâmbulos sobreviventes. Ler um poema de Herberto Helder era como mergulhar num sonho, mas agora nós acordamos e não haverá novos poemas, destros ou canhotos. Deixou-nos o poeta, ficou-nos a sua ciência e a sua poesia.

Foi assim e será o Herberto Helder dos 13 poemas canhotos finais, o último destes com rimas em ão. Impossível! Não há impossíveis na poesia, o que há são imaginações demasiado curtas, ou imaginações fora do alcance da imaginação. A fabulação de Herberto Helder era ser a cada poema, um outro Herberto Helder, sempre sendo Herberto Helder.    

Um poema não salva o mundo, mas o protege da cacofonia dos maus poemas e dos sofismas de outros discursos. Todo poeta deveria pensar, poisar a pena e fazer um minuto de silêncio. Talvez, escrever  o  poema longuíssimo de um minuto de silêncio de muitas vidas.  

Orfeu B.

 

escrever poemas não é boa maneira de atordoar os 

tempos do verbo, 

não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,

nem perder algures uma perna/ e lembrar-me depois de perder ainda a outra:

 ninguém ganha assim uma barra de ouro,

ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,

ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,

tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:

e como só de pensá-lo o corpo avança! escrever, 

deixar de escrever,

escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa

 quanto se pensava

um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,

escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do costume:

 colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios olhos,

e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,

tudo tão prodigioso que se não entende nada:

uma rosa é uma rosa é uma rosa - disse ela em inglês

 (há quantos anos li isso!)

(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)

a rose is a rose is a rose et coetera

- mudou-me a vida?

oh faminta ciência da paciência!

coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida, 

e então porque não a mudaria uma rosa compactamente múltipla?

morrer por uma rosa é que fia mais fino: 

que fabuloso fio em que roca e em que fuso,

que segredo do mundo

 

Herberto Helder

 

 

 

(Orfeu Bartolami foi entrevistado por Renato Ferreira para o site rjp - pode ouvir a entrevista aqui: http://www.ricardojorgepinto.com/posts/view/169 )

 


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