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À Espera dos Bárbaros

Renato Ferreira 07.10.2016

Às sextas, às seis...um livro.

Hélia Filipe Saraiva sugere:

"À Espera dos Bárbaros" de J.M. Coetzee.

No dia 2 de Outubro assinalaram-se duas efemérides notáveis justificativas da minha sugestão literária: o Dia Internacional da Não-Violência e o aniversário de nascimento de M. Gandhi cujas palavras ecoaram no discurso do Secretário- Geral da ONU: “Precisamos de ser a mudança que queremos ver no mundo”. A audição desta frase remeteu-me para o  terceiro romance da autoria de J. M. Coetzee, À espera dos bárbaros, cujo título nos remete para o poema de K. Kaváfis que agrega simultaneamente uma função de intertexto e de pré-texto, uma vez que a densidade da escrita do laureado com o prémio Nobel da Literatura cativa-nos com uma tensão que nos alerta para os efeitos da violência e da tortura num espaço não identificado. À espera dos bárbaros, apresenta-se como uma narrativa que elege para o seu epicentro a personagem de um Magistrado, colocado num posto fronteiriço à espera da reforma, cujo carácter o leva a colidir com os métodos opressivos usados contra os nómadas (denominados bárbaros) pelos militares. O cargo que ocupa nessa zona árida e circundada pelo deserto, dificultam a sua localização, uma vez que o espaço retratado constitui uma metáfora às diversas manifestações dos discursos de poder, dada a alternância entre a austeridade do espaço e a sua contenção silenciosa. Esta ambivalência acentua-se através da ameaça às vezes difusa, outras vezes iminente, da alarmante invasão bárbara que dizimaria a ordem imposta pelo Império.

O desequilíbrio entre o poderio militar, aludido no armamento usado pelos funcionários do Império, e a tibieza dos meios usados para pescar e dos instrumentos de caça do povo nómada reflete uma lógica que traduz a necessidade de atemorizar os nómadas mediante o emprego visível de métodos violentos. Este raciocínio é ilustrativo em diversas partes desta narrativa: o primeiro surge na menção à bazófia do coronel Joll referente à caça, o segundo na menção à tortura dos nómadas presos durante uma deslocação em busca de auxílio médico e o terceiro à brutalização de uma mulher, de quem não esperam obter informações conspirativas, mas somente vocalizar o terror. A tortura é infligida com o intuito de imprimir a verdade determinada pelo Império, nesse sentido a procura da verdade consiste num pretexto subversivo para justificar o uso da força, não deixando de ser uma crítica à superlativização da racionalidade apensa ao positivismo científico, em virtude da sua contraposição ao apego telúrico, ao ritmo das colheitas e das estações, bem como dos ritmos orgânicos respeitados pelos nómadas.

O tratamento desumanizante infligido sobre a jovem privada da sua visão e da sua capacidade de mobilidade, visto que a cegaram e fraturaram os tornozelos, suscita uma necessidade de redenção do Magistrado, concretizada na sua decisão de restituir a jovem à sua comunidade, embora incorresse  numa acusação de traição. Segue-se o seu aprisionamento e tortura ao longo da qual surge clarificado o entendimento da lógica coronel “Dor é verdade; tudo o mais está sujeito a dúvida” (Coetzee,1986:12) uma vez que o tom veraz corresponde à expressão da dor não enunciada numa língua verbal referencial. O seu ato permite-lhe identificar-se com os demais seres humanos brutalizados e a reapossar-se da humanidade roubada pela esterilidade das ações perpetradas em nome do Império. O protagonista entende que os indivíduos precisam uns dos outros para se afirmarem como seres livres, dignos e honrados, uma vez que a prática do totalitarismo, da tortura e da violência constituem a manifestação da mais inominável desumanização. É, na minha perspetiva, a propósito desse caráter inominável que o relato das suas funções não corresponde aos “anais de um posto avançado do Império ou o relato de como as pessoas desse posto passaram o último ano tranquilizando as suas almas (…) “Nenhuma das pessoas que visitou este oásis”, escrevo “ficou indiferente ao encanto da vida local (…) Este era o paraíso na terra.” (Coetzee,1986:135)

Hélia Filipe Saraiva.


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