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Copo 1/2 cheio

Hélia Saraiva 05.12.2016

Copo 1/2 cheio de inclusão

Introduzimos no motor de busca google a frase “Universidade Fernando Pessoa e V congresso de Educação Especial”. A objetividade das réplicas impregnou-nos de interesse e curiosidade sobre os desafios implícitos num pentaevento onde assistimos às propostas proferidas por oradores europeus e sul-americanos ao longo da exposição das suas comunicações edificantes.

A nossa modesta participação incidiu na necessidade de procedermos a uma revisão dos discursos deficitários respeitantes à deficiência, decorrentes da influência caritativa e paternalista - ainda vigente sobre aquela - mediante uma articulação entre a Educação Especial e os Disability Studies. A fim de evitarmos contaminações ideológicas provenientes da tendência para desenrolar um inventário das estigmatizações, exclusões e sectarismos instauradoras de ceticismos, causados pelas perspetivas monosetoriais sobre a inclusão, rico em estratégias normalizadoras. As fraturas resultantes da falência dessa postura, caracterizada pela imposição de diretrizes reabilitadoras do indivíduo vulnerável à vida normal, desafiam-nos a resistirmos aos entorpecimentos baseados exclusivamente na identificação e na correção obsessiva da falha, da lacuna, do erro e do défice impelindo-nos a procurarmos soluções – facilitadores - desvanecedoras.

Os estímulos para a busca de fórmulas solucionadoras, provenientes do legado do obsoleto modelo biomédico, devem ser prudentemente desmontados com o intuito de não serem reforçadas resistências ao modelo biopsicossocial recém adaptado. Desse modo e, de acordo com o nosso ponto de vista, a instauração de uma proposta de ensino inclusivo e transdisciplinar, incrementado pela articulação referida, deve realizar-se de modo a que declarações do seguinte teor:  “I am not disabled. I just don’t have legs”, proferida por Oscar Pistorius, não sejam remetidas para o campo da ficção científica, tampouco para os freak shows, pelo facto de defendermos que as pessoas com deficiência devem consciencializar-se do respetivo potencial como protagonistas das suas enunciações discursivas, isto é, como sujeitos que tomam a palavra conferindo um valor performativo às suas vozes, às suas identidades, às suas capacidades sem obnubilarem o Outro.

As amáveis observações feitas à nossa comunicação, acrescida da troca de impressões e das aprendizagens com os nossos colegas originários de outro continente, distinguiram-se pela qualidade dos temas abordados, pela proficiência organizativa, pela presença diligente dos anfitriões durante os coffee breaks - pessoas com e sem deficiência - , e pelo eco dado a um dos nossos argumentos que hoje designamos de aprendizagem do copo 1/2 cheio. Advogamos a predisposição para, face a um copo excludentemente vazio, dotar-mo-lo de funcionalidades inclusivas, visto que a identificação da sua vacuidade constitui um estímulo à sua exclusão e “inutilidade”.

 

A provocação possibilitada pelo ângulo didática da imagem do copo ½ cheio servirá de base para analisarmos um terreno, ainda  por preencher, onde lançaremos as sementes de um projeto inclusivo. Esta decisão decorre das motivações aludidas, do tema da nossa investigação e da  consciência de que a reificação do imediatismo na nossa sociedade desencadeia o estilhaçamento da informação e, inerentemente, a quase invisibilidade das notícias referentes à inclusão das pessoas com deficiência e incapacidades. Por esse motivo, não apresentamos a necessidade de aumentar a quantidade de discursos nem de notícias relacionados com a deficiência com um tom ameaçador, nem como um ar(a)m(e)a de arremesso, mas como um repto suscetível de desobstaculizar, quais próteses facilitadoras, o ruído “pósveraz” impeditivo da transmissão de informações, bem como das mais valias veiculadoras do dispositivo mutabilidade.  Apadrinhamos a premência de nos dotarmos de potencialidades de banda larga, proporcionadas pela  transdisciplinaridade entre Educação  Especial, Ciências da Informação e Disability Studies, de modo a estimularmos a noção de que os dilemas e as questões abrolhosas sejam replicados com interpretações (ou ensaios de preenchimento dos copos), com a finalidade de demonstrarmos que o esboroamento de um modelo – biomédico – não inquina a germinação de processo eventualmente mais complexos, mas potenciadores da circulação de soluções factivelmente informativas e desestigmatizadas respeitantes à inclusão. O acesso da minoria em causa aos media suscita uma revisão ½ cheia da máxima “o meio  é a mensagem”, na medida em que os seus membros são urgidos a repensar, conjuntamente com os demais cidadãos, o reconhecimento do direito do acesso à informação e à liberdade de expressão, de modo a diminuir a tentação para os discursos trágicos, miserabilistas assinalados como ladainhas “boné na mão”.


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