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Mudanças de 2016

Ana Marinho da Silva 28.12.2016

 

Depois de um longo período de pausa, lá que veio a saudade bater-me à porta e questionar: as férias foram boas?

 

Não foram férias. Acreditem. Foi um período de reflexão extremamente necessário para me compreender a mim e aquilo que quero.

 

2016 foi um ano de mudança. Esta é a palavra que melhor define os meus quase 366 dias.

 

De 4 em 4 anos o tempo decide ser meu amigo e dizer: vá, dou-te mais umas 24 horas para fazeres algo por ti este ano.

 

A minha decisão foi parar. E descobrir-me.

 

Sou quase como uma metamorfose escrita por Franz Kafka, com a única diferença de que em todos os meus sonos intranquilos, nunca acordei transformada num monstruoso inseto. Se acordasse queria ser uma borboleta. Assim tinha apenas 24 horas de vida, em vez de 24 horas de compensação.

 

Questiono-me múltiplas vezes o que faria se só tivesse 1 dia de vida. Em 20 anos nunca fiz tudo o que poderia ter feito. Deixei-me levar muitas vezes pela preguiça e pelas típicas frases “tenho tempo”, “já vou”, “agora não” e quando tinha pouco tempo havia sempre problemas: “epa, não tenho vontade”, “não estou inspirada” ou “estou mesmo sem cabeça”.

 

Quanto tempo da nossa vida desperdiçamos com essas frases ridículas?

 

Ganhemos energias. Boa frase só há uma: “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”.

 

Sim… já todos a ouvimos, mas quantos de nós realmente a seguiu à regra?

 

Pensem no tempo que aproveitariam em seguir este ideal. O quanto iriam crescer, aprender. O quanto se iam cultivar.

 

Em 2016, eu mudei.

 

Parei. Observei. Aprendi.

 

Lidar com pessoas é lixado. Lidar com promessas não cumpridas é lixado. Saber dar o troco a essas pessoas é lixado para elas.

 

Se houve uma coisa que 2016 me trouxe foi saber distinguir no meu cérebro quem realmente vale a pena. Dividir as pessoas por grupos, encaixá-las como os puzzles de 1000 peças que me “comiam” a cabeça quando era miúda.

 

Com a prática a coisa tornou-se fácil. Poderia dar-lhe outro nome, mas coisa assenta-lhe bem.

 

Apesar de já ter superado o stage de aspirante nesta área, ainda me incomoda pensar no porquê de as pessoas serem como são. Egoístas, gananciosas, cruéis, interesseiras.

 

Porquê o atentado terrorista no aeroporto e no metro de Bruxelas em Março?

 

Porquê que o ataque a um bar LGBT em Orlando em Junho?

 

Porquê os atentados no aeroporto de Istambul em Junho?

 

Porquê o atentado em Nice no dia da Bastilha?

 

Porquê o atentado em Berlim na altura do Natal?

 

 

 

Acredito cada vez menos na humanidade.

 

Vivemos num mundo de mentiras. Já em Abril houve a fuga de informação dos Panama Papers que acabou por revelar o escândalo de evasão fiscal global, envolvendo milhões de documentos sobre empresas offshore.

 

Num mundo de tragédias com sismos, quedas de aviões, mortes…

 

Como vi alguém publicar no facebook e  que concordo totalmente, a personalidade de 2016 foi a morte.

 

Perdemos a Carrie Fisher, o David Bowie, o George Michael, o Alan Rickman, o Muhammad Ali, o Fidel Castro e perdoem-me por aqueles que faltam, mas infelizmente a lista é grande.

 

Também eu perdi pessoas queridas. Também isso me mudou.

 

Questionei-me muitas vezes ao longo deste ano: podemos ser órfãos de avós? Esse termo existe?

 

Eu espero que não. Sinto que não. Porque os avós vivem sempre em nós. Perduram no tempo. Acompanham-nos com um sorriso no rosto de quem tem orgulho nas nossas escolhas, mesmo quando pomos o pé na poça.

 

Não estão connosco, mas estão sempre connosco.

 

Percebem-me?

 

2016 foi uma m**** para a vida. O mundo ficou mais pobre. Perdemos um pedaço do sol que nos dava luz, ficamos mais abraçados à escuridão. Perdemos-lhe medo enquanto que, simultaneamente, lhe ganhamos um medo louco.

 

No entanto, gosto de pensar nos aspetos mais positivos ou, se preferirem, menos negativos deste ano.

 

O DiCaprio ganhou o seu primeiro óscar. Vá lá, não me digam que já se esqueceram… e o Spotlight, uma ode ao jornalismo, ganhou o óscar de melhor filme.

 

A 10 de Junho começou o grande Euro 2016. Digam lá se não é uma data memorável? Mas mais memorável ainda é um mês depois: dia 10 de Julho. Umas mãos tremidas, portugueses agarrados à televisão, a fé de um povo, uma taça que ficará para sempre na memória dos portugueses.

 

Nunca me esquecerei do momento em que o Éder entrou no jogo. Nunca me esquecerei do golo. Nunca me esquecerei da emoção. Porque o futebol mexe connosco. A seleção mexe connosco.

 

As lágrimas ficarão sempre. As mãos a tremer também. Os gritos de alegria ainda mais.

 

Ronaldo foi o melhor jogador do ano. Fernando Santos o melhor selecionador.

 

Estão a ver? Nem tudo foi mau.

 

Logo no inicio do ano tivemos Marcelo Rebelo de Sousa como presidente.

 

A União Europeia perdeu o Reino Unido ou o Reino Unido perdeu a União Europeia.

 

O mês de agosto de 2016 foi o mais quente a nível global desde que há registos.

 

Tivemos jogos olímpicos com muita polémica.

 

Um Bob Dylan a receber o prémio Nobel da Literatura.

 

Uns E.U.A a retroceder no tempo. Com Trampa para 45º presidente.

 

E já que o texto está a ficar enorme e a nossa sociedade não tem tempo para nada, fico-me por aqui com a promessa de que em 2017 estarei mais presente, para partilhar convosco as mudanças que coletei em 2016 e os conhecimentos que irei adquirir neste novo ano.

 

O meu único desejo é que em 2017 as pessoas tenham mais tempo e que lidem menos com a escuridão.

 

Que sejam humanas.

 

Que mudem.

 

Que sejam felizes.

 


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