viver

Memórias de distância

Ana Marinho da Silva 05.01.2017

[Breve nota inicial: quem me conhece sabe que adoro o Japão e a sua cultura. Apesar de o texto não ser sobre isto, é importante para compreenderem a minha escolha.]

 

Chegou a altura de pousar a mala em cima da cama e de a encher aos poucos e poucos. Num movimento melancólico, um tanto robótico.

Faço uma lista mental e confirmo se tenho tudo.

Meias: check.

Escova de dentes: check.

A vontade de ir existe, mas ter de partir custa sempre.

Algo que a vida me ensinou é que a distância é dos piores conceitos físicos que existem. Estamos sempre distantes uns dos outros, existem sempre uns meros centímetros que ditam a sua existência.

Sempre odiei a distância. Quem me conhece sabe que sempre fui de toques, proximidade.

Gosto de criar ligações com as pessoas, não distâncias.

 

 Akari Shinohara: Hey... They say it's five centimeters per second.

Takaki Toono: What do you mean?

Akari Shinohara: The speed at which the sakura blossom petals fall... Five centimeters per second.”

 

Existem distâncias tão certas, com velocidades tão incertas.

2500km.

Este é o número que me separa de quem mais amo.

Felizmente, certas coisas são extremamente importantes para que a distância (e, consequentemente, o tempo) as apaguem.

Ninguém me tira o cheiro tão característico de minha casa. O toque da almofada da minha cama. As noites em que todos nos reunimos no sofá a ver um filme (e em que eu acabo sozinha a vê-lo com o meu irmão, porque os meus pais adormeceram). Ou os jantares silenciosos, porque a comida está deliciosa.

Nem tudo na vida é como queremos.

Nem sempre sabemos lidar com as situações como deveríamos. Muito menos quando se relacionam com o coração.

Basta um gesto, uma frase, uma música, uma imagem, um cheiro… familiar. Basta isso para um simples e honesto sorriso me aparecer na face. E talvez uma lágrima, discreta ao público.

Qualquer coisa, por mais pequena ou simples que possa ser, pode ficar gravada na nossa memória e na nossa alma.

Qualquer coisa pode ser como uma lembrança carregada de vida que nos acompanha o resto da vida. Conseguem compreender-me?

 A profundidade das coisas simples molda-nos, afeta-nos, torna-nos em quem somos.

A minha personalidade. As minhas escolhas. Foram todas graças às minhas memórias felizes e infelizes.

Hoje vou sair com a mala pesada, quando preferia entrar. Mas saio com a certeza de que irei voltar mais culta, com memórias para partilhar com quem mais memórias criei.

 

Maybe we tried to leave as much memories of ourselves with each other because we knew one day we wouldn't be together any more.”

 

E vou viver com essas memórias. Vou viver essas memórias.

E daqui a uns tempos vou refletir sobre elas e pensar no quanto me ajudaram a crescer.

A mala vai pesada de saudade, esperança e amor (e um conjunto de roupa). Vai sair por aquela porta envernizada de madeira com a certeza de que leva as memórias bem guardadas, num bolso em veludo vermelho.

O que odeio nas partidas é a incerteza no regresso.

Entendam: não tenho medo de não regressar. Tenho medo de como será o regresso.

Porque o meu presente agora, não será o mesmo quando voltar. Porque aquela moldura estava mais para a esquerda. A jarra para as flores não é a mesma, porque se partiu. Porque estarei mais velha. Porque o tempo passou.

 

“Every minute felt like an eternity time”

 

Acho que quando regressar já terei vivido uma eternidade e aquela mala pesada será mais sábia que qualquer outra - porque já viveu uma vida de memórias felizes.

Estou pronta para pegar nela agora. Vou sair com o pé direito, para ter a certeza que as memórias que estão por vir valerão tanto a pena quanto as que já colecionei.

Vamos lá, as portas de embarque já abriram.

 

 

Nota final: As citações são do filme "5 centimeters per second" - produzido por Makoto Shinkai, fala precisamente da distância. Num ecrã, acompanhamos a história de Takaki Tono que na escola primária faz amizade com uma rapariga recentemente transferida para a sua escola, Akari Shinokara. A ligação deles é tão intesa que se tratam pelo primeiro nome (quem conhece a cultura japonesa sabe que eles raramente se tratam dessa maneira - os japoneses são extremamente cuidados nos relacionamentos, por isso chamam as pessoas pelo sobrenome e acrescentam pronomes como "chan", "kun", "san" e "sama" que variam de acordo com a classe, idade e posição social. Só se tratam pelo primeiro nome se houver uma grande intimidade no relacionamento. Eles crescem juntos, mas nos últimos anos da escola, acabam por se separar. Mas a ligação contínua. E o desejo de terminar com a distância também.

 

E mais não conto, porque quero que vejam o filme e acreditem: não se vão arrepender!]

Lenços: check!


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