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Conversas que são aula

Ana Marinho da Silva 20.01.2017

Hoje tive uma aula como já não tinha há muito tempo.

Vir para a Polónia tem-me trazido muitas coisas. Felizmente, a grande maioria delas são positivas.

Hoje a minha professora de comunicação criativa pediu-nos para nos juntarmos ao colega de turma com quem menos falamos desde o início do semestre. Aquela pessoa que sabemos que estuda connosco, mas com a qual nunca falamos, apenas lançamos um sorriso humilde e tímido, ás vezes nem isso. Aquela pessoa que “julgamos” sem nunca a termos conhecido realmente.

Assim o fiz. Juntei-me com uma pessoa com a qual poucas vezes falei e com quem sempre que surgia conversa, esta não avança muito. Eu sabia o seu nome e ela o meu, mas nunca tínhamos ido muito ao pormenor numa conversa.

Assim que escolhemos a pessoa, a nossa professora decidia o tema.

“O que nos aconteceu de bom na semana passada” – foi este o tema escolhido.

No início, eu e a minha colega olhamos uma para a outra e questionamo-nos da escolha da professora. Não fazia muito sentido. Nem sabia bem o que dizer, para vos ser sincera.

Acontece-nos tanta coisa de bom e tanta coisa de mau e muitas vezes tanta coisa que não é nada.

A verdade é que após termos trocado ideias, revelado o acontecimento positivo, apercebemo-nos nas semelhanças do que é “bom”.

Amigos.

Foi o nosso ponto em comum. Amigos trazem-nos felicidade, tornam os momentos especiais. Transformam aquela semana em algo especial. E apesar de nunca ter falado muito com ela, após aquele breve início tímido, a conversa desenrolou. Falamos sobre nós, o nosso país, a nossa comida, os nossos gostos.

E… passamos a conhecer-nos melhor.

Quando acabou o nosso tempo de conversa, a professora pediu para trocarmos de colega. Outra pessoa com a qual pouco falamos.

Desta vez encontrava-me mais recetiva à experiência. O tema mudou, passou a ser “um dos nossos sonhos”.

E por incrível que pareça, também encontrei pontos em comum.

Sonho em ter a minha própria biblioteca. Um quarto em minha casa com prateleiras repletas de livros, uma janela com vista para a natureza e um sofá criado com almofadas e cobertores. Nada mais naquela sala. Apenas eu, os meus livros, a minha vista, a luz natural e o conforto do meu “sofá”.

Já ela… sonha em abrir uma livraria.

A conversa tornou-se animada. Ficamos entusiasmadas, falamos de livros, géneros, livrarias, escritores, do papel que os nossos pais tiveram no nosso gosto pela leitura e pelos livros. E apesar de sermos de culturas tão diferentes e pessoas tão diferentes, encontramos uma harmonia nos nossos sonhos distintos, mas semelhantes.

Altura de mudar novamente. Desta vez a conversa tornou-se um pouco mais delicado para mim. Apesar de o tema não ser muito diferente.

“O que vais fazer este ano que te vai ajudar a cumprir os teus sonhos”.

Comprar mais livros, como é óbvio. Mas a biblioteca é apenas um sonho entre tantos outros. O que posso fazer este ano para realizar os restantes?

E a conversa com a minha colega foi delicada e positiva. Ela é mais velha do que eu. Já licenciada em direito, no seu país de origem. No entanto, quando terminou sentiu um grande vazio dentro dela. Aquilo não era o que ela queria, não era o que sonhava. Aquilo era o sonho da mãe dela e só a queria fazer feliz. Mas faltava-lhe a sua felicidade.

Faltou-lhe o apoio dos pais, mas ela não desistiu. Agora está na Polónia e a estudar communication management e a lutar pela seu sonho, mas é com tristeza que ela diz “já vou tarde. Já não tenho muito tempo para ter dúvidas do que quero fazer. Preciso de saber agora o que me faz feliz”.

Ela ouviu-me. Ouviu a minha situação de estudar ciências no secundário, mas ir para letras na universidade. Ouviu tudo com cuidado e perguntou-me “já te decidiste sobre o que queres fazer quando acabares?”.

E aí perdi bem noção das coisas.

Sempre gostei de controlar tudo. Saber que consigo dar a volta por cima às coisas. Quando corre mal, saber que consigo remediar. Sempre me apliquei muito em tudo o que faço. Sou extremamente perfecionista. Sempre lutei para ter mais. Sempre fui curiosa e sempre quis saciar esta curiosidade, que é impossível de saciar.

E apesar de dizer a toda a gente que sei o que vou fazer no futuro, inclusive a mim, naquele momento eu não tinha a certeza. E se não tinha certeza nesse momento, nunca tive.

O meu coração puxa-me para um lado contrário à minha razão. A verdade é que nos dias de hoje é difícil seguir o coração. Temos de ser racionais, seguir aquilo que nos dará um futuro seguro.

Fui para comunicação pela minha paixão pelas letras. Pela minha vontade de descobrir, de contar histórias, de contar a verdade, de mostrar o mundo. Pela minha cabeça sempre cheia de ideias. Pela felicidade que sempre senti quando entrava em contacto com esta área.

No entanto, sinto que em Portugal tenho de ir pela razão. Fazer aquilo que é o mais correto, que me vai garantir o futuro, que me vai dar segurança.

Até que ela me perguntou a minha idade.

Aí ela sorriu para mim e disse “és tão jovem. Podes ser tudo o que quiseres.”

Sim, tenho 20 anos, mas não me considero com tempo para ser tudo o que quiser. Aos meus 25 quero já estar a trabalhar, quero ter uma vida bem encaminhada. Se eu fizer tudo o que quiser, esse plano nunca será cumprido.

A minha professora contou-nos que um professor dela, com os seus 60 anos, lhe admitiu que ainda não sabia o que queria para a vida.

Será que eu alguma vez irei saber?

Existem tantas coisas a correrem-me na cabeça neste momento e gostava que alguém ouvisse o meu pedido de socorro.

É errado ainda não saber o que vou fazer da minha vida?

A vida é complicada…

… ou é só a relação da mente humana com o coração que não resulta?


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Comentários

Olívia Carmo

20.01.2017

Adorei o texto, muito bem escrito. É daqueles textos que nos apetece ler mais, e que não queremos chegar ao fim. Parabéns à autora ????

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