viver

Champanhe de Eça

Hélia Saraiva 14.02.2017

Agradam-nos personalidades extravagantes e capacitadas com habilidades surpreendentes para transbordarem as orlas das convenções. Destituídas da ânsia desenfreada, semelhante a uma corrida de galgos, para a perseguição das lentes dos holofotes ou das câmaras confundidas com paredes de aquários, tamanha a quantidade de boquinhas de pato prontas a posar, na expectativa de cativarem a atenção e os elogios dos voyeurs ávidos em espreitarem voluptuosidades tão consistente como as membrana delgadas dos peixes retirados dos seus habitats.

Gostamos - reforçamos - de indivíduos cuja extravagância e distinção é lançada para a criatividade e a estética, à semelhança dos feitos realizados por autores como Eça de Queirós, Amélie Nothomb, entre outros. Distam anos entre os seus nascimentos, contudo mencionamo-los dada a existência de alguns pontos em comum: a envolvência da diplomacia, o culto da elegância, o apreço pela literatura e pela plasticidade das mais-valias do champanhe. A autora, confessa-se enamorada das bolhinhas oferecidas pelo líquido efervescente considerando-o um bom catalisador, cuja influência no seu quotidiano é apresentada do seguinte modo numa entrevista: “é tanto um objetivo como um combustível, [pois] é um estilo de vida”. Além da envolvência inebriante inerente ao líquido cor de mel, não esqueçamos que a compra de garrafas do elixir ombreia a fruição de privilégios com a discriminação -  e a crítica social – na medida em que favorece algumas bolsas e desfavorece outras.

A decisão de redigir sobre as duas perspetivas em romances, conjugando a alegre frugalidade do seu consumo com a denúncia social, ancora-as num contexto burguês que recorre a objetos - bebidas - que além de espelharem aquelas características, refletem um recurso pontualmente adotado por Eça. Qualquer leitor daquele romancista, entende claramente esta afirmação durante a leitura da sua obra, ao longo da qual constata a abundância  de descrições usadas para enriquecer os seus personagens e, simultaneamente fornecer pistas de leitura sobre a trama da   estrutura do romance.

Certamente já  adivinharam que aludimos ao champanhe nomeado  na obra queirosiana, no entanto, lembramos-vos que o autor  não escolhia  os seus objetos pelo seu valor facial, dado que os sujeitava à ampliação indiciadora das características das personagens e a uma consequente pasteurização dos valores sociais dominantes. Concomitantemente, retornamos à frase transcrita da referida champenoise  belga, a fim de afirmarmos que também o escritor português comungou da ideia da necessidade de a descrição de um objeto ser revestido de sinais enriquecedores da descrição do ambiente social e do estilo de vida experimentado pelos personagens. Ilustramos essa lógica recorrendo à temática civilizacional e aos binómios espaço citadino/ espaço rural; Adão natural/ Adão social; diversão/monotonia e abundância/ carência elaborados por Eça no romance A Cidade e as Serras  (apesar de a ter introduzido previamente no conto intitulado Civilização). Leiamos a elucidativa argumentação do personagem de Zé Fernandes, em Paris, enquanto caminha acompanhado de Jacinto :

 

 

“E se ao menos essa ilusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a

mantém...Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos  especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica Basílica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por ele sangrou, bem avistamos nós o lôbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opróbrio de que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua própria força brutal a poderão jamais libertar! Aí jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade”.

 

O autor recorre à fala do personagem para criticar as lacunas do projeto civilizacional,  e desnuda a falácia referente à cultura europeia como sendo superior à cultura dos demais continentes. O seu ataque é pungente quando se refere à ingestão de champanhe amesquinhando, simultaneamente, a gula ostentada por ambos:

 

“E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos para que os Jacintos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em champanhe e avivados de um fio de éter!

- E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu! Ele murmurou, desolado: - É horrível, comemos desses morangos.”

Salientamos que atualmente comemos morangos em qualquer estação do ano, no entanto,  a possibilidade de ingerir aquele fruto no Inverno era encarada como uma extravagância sazonal. O seu cultivo fora de época levou o romancista a lançar uma crítica à estratégia aceleradora,  anti-natura e imperialista, vivenciada no contexto paradoxal de uma sociedade da abundância (com laivos decadentistas). A constatação do crescimento da sociedade regida pela ideia de progresso conferiu protagonismo à figura de personagens com vícios e virtudes - como Jacinto – que faziam do seu microcosmos o reflexo da sociedade, que era entendida à luz da personalização feita por indivíduos civilizados como aquele.

Esta atenção excessiva à procura de novidades singulares ilustrativas do o progresso terá sido um  motivo que orientou o protagonista a  privilegiar ironicamente a História Augusta como se tratasse de um livro de consulta para festas temáticas, como foi irónica e lapidarmente descrito, por Eça de Queirós,  quando foi reproduzido, na casa de Jacinto, um quadro de Alma-Tadema, onde foi retratado um dos festins de cor, gizados por um imperador romano, cognominado de Heliogábalo: 

 

“O 202, nesse inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na História Augusta: e ofereceu ás suas amigas esse sublime jantar cor de rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os Champagnes, a até (por uma invenção da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, enquanto do tecto, de um velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosa (…)” E o meu Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou perante de mim as mãos nas ilhargas e gritou triunfalmente: “Hem? Que maçada!”

 

O banquete do imperador romano, conhecido pela devassidão e pela organização de espaventosos repastos, ficou marcado por ter brindado os seus convidados com um festim floral, perfumado e licencioso, cuja apoteose consistiu em acamar os comensais soterrados por um aluvião asfixiante de pétalas de rosas.

O festim regado a champanhe do  personagem de A cidade e as Serras, não pretendia ser um alerta preventivo à toxicidade das refeições abundantes. Consistia, na nossa perspetiva, numa crítica à estética decadentista, que embora tenha roseamente velado muitos deslumbrados, continha alguns espinhos que levaram Jacinto a abandonar a flacidez ornamental e artificial do estilo de vida dito civilizacional, e a abraçar a pulsação de um estilo de vida brotante:

 

“[e]ntre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. (…) Aquele ressequido galho da Cidade, plantado na serra, pregara, chupara o humo do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor a bendiziam.

 

Escolhemos este trecho mais intimista para terminar o nosso texto e, na véspera do dia de S. Valentim, socorrermo-nos do auxílio imagético dos “cem casais” lisonjeiros para transmitir as sugestões para esta semana:

- uma visita à exposição da obra de Lawrence Alma-Tadema, organizada pelo Museu Fries: https://www.belvedere.at/en/lawrence-alma-tadema

 

- a leitura da obra queirosiana.

 

- a celebração da semana com uma boa garrafa do rosado champanhe “viúva”.

 

 

Desejamos-vos uma boa e amorosa semana!


Relacionados

Contracapa, página 6

Sugestão crítica do livro "O Crime do Padre Amaro" de Eça de Queirós

Continuar a ler Ana Marinho da Silva   10.12.2018

O LADO QUE NINGUÉM VÊ

Por vezes é difícil ser quem somos, não acham?  Obviamente, mostramos a camada...

Continuar a ler Diana Silva   05.12.2018

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário