viver

Tralaland

Renato Ferreira 15.02.2017

Às quartas, às quatro...um filme - AfterParty.

Pois é: hoje, como temos mais do que um texto sobre o mesmo filme, abrimos esta AfterParty na nossa rubrica de filmes para obtermos a visão de Raquel Felino ao muito falado 'La La Land - Melodia de Amor'.

 

Tralaland


Expectations, expectations, expectations… É sempre complicado fazer uma crítica a um filme nomeado a 14 óscares, número apenas igualado pelo All About Eve e Titanic e vencedor de sete Globos de Ouro, algo nunca antes acontecido. Mas mais difícil do que escrever, é ver um filme destes com a folha em branco. E confesso, não consegui. Este é indubitavelmente o filme do ano, e quando o fui ver, numa matiné de Quarta-Feira descomprometida, eu já tinha lido mais do que queria sobre o filme. Entre textos que o punham no Olimpo do cinema, e outros que o arrasavam, eu confesso, esforcei-me para adorar este filme, porque sempre tive um fraquinho por musicais. Mas depois depositaram-me o teclado no colo e pediram-me que fizesse uma crítica honesta e não me pude faltar à verdade.

Tratando-se de um dos meus meta-textos favoritos, um filme sobre o cinema, eu esperava um argumento bastante mais profundo. Tão profundo quanto Damien Chazelle tinha sido em Whiplash, filme cujo sucesso possibilitou que La La Land acontecesse. Apesar de Whiplash não ser um musical e La La Land sim, eu acredito que o primeiro nos conta bem mais sobre música e a experiência de músico. E a verdade é que uma das críticas mais consistentes a La La Land é que este não é verdadeiramente um musical. Muito possivelmente esta foi uma escolha consciente dos produtores que quiserem trazer ao cinema quem tem pouca paciência para “tralalalas” e cenas de sapateado. Mas para mim esta foi a maior das desilusões. Porque penso em tantos quantos os musicais que são homenageados neste filme e em tão pouca música que ele nos dá. Ainda por cima quando as poucas canções do filme são razoavelmente boas e bem escritas. Penso na falta que faz o constante uso da música ao longo da narrativa, ironizando-a, jogando com ela, usando-a como raccord. Como quase todos os musicais que deixam memória o fizeram.

Para além do género musical questionável, o argumento deixou-me em muitos momentos com o coração nas mãos, por ficar com a nítida sensação que poderíamos estar perante uma coisa realmente boa. Como quando as personagens vão ver o Rebel Without a Cause, como quando pegam na questão de Los Angeles decadente. E por aí ficam planos, nada se arredonda. E se por segundos tive esperança que se desenvolvesse quando Ryan Gosling cita uma frase da mulher e actriz Eva Mendes: “That’s LA. They workship everything and they value nothing”, a verdade é que não passa da borda da água. Este filme é acima de tudo uma carta de amor a Hollywood da golden age, e não se inibe em nada em recriar dezenas de cenas desses mesmos filmes, numa simplicidade quase juvenil. E pensando em todo o sucesso que o filme está a ter, lamento que não tenham conseguido fazer ainda melhor, para que fizesse realmente história. A começar pelo erro de casting com Ryan Gosling, que nitidamente se sente desconfortável no papel, um desconforto quase palpável, e que se vai atenuando ao longo das estações do filme.

Como comecei por dizer, é complicado ver-se um filme que cria expectativas tão altas e que nos oferece uma premissa tão boa. E apesar do sentimento de desilusão, eu gostei de muito do que o filme transmite. A questão dos prémios, condiciona logo toda a experiência, porque eu achei-o razoavelmente bom, mas não “14 Oscars nominations good”. Gostei do final a lembrar o alucinante 25th Hour de Spike Lee, gostei de ver o filme a "crescer" da primeira parte para a segunda. Achei que a Emma Stone 'big eyes' está incrível e ninguém lhe arranca o Óscar. E gostei do mood, um filme alegre, diferente, com uma mensagem de esperança e de amor. E num mundo em que os dramalhões são tão enfatizados, é sempre bom que volta e meia um filme destes se destaque e venha relançar os dados. Como aconteceu com o fantástico The Artist. Se é uma obra de arte como este, não, nem pensar. Mas deixa uma óptima sensação pós filme e aquece um bocadinho o coração. E isso, já vale um bocadinho mais no meio de todas as críticas negativas que lhe possamos fazer. 


Relacionados

Agradar

Poderá o PS não sair prejudicado pelas divisões sobre o tema das touradas? Tudo...

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   16.11.2018

Surpresas

Costa diz-se surpreendido por decisão da bancada parlamentar do PS sobre a tourada....

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   16.11.2018

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário