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O Jornalista-Estadista

Renato Ferreira 26.02.2017

Nota prévia - Antes de mais apresento, neste texto que é meio a sério meio a brincar, a minha definição de estadista: aquele ou aquela que se preocupa, de facto, com a saúde da “vida” de um país, sendo que um país é constituído pela vida de todos os cidadãos que nele vivem.

Para onde caminha o jornalismo político? Se o jornalista não domina a área sobre a qual tem a responsabilidade de criar notícias, cairá inevitavelmente na função de “pé-de-microfone”; ou seja, simplesmente estenderá um microfone ou um gravador para que nós em casa possamos ler, ver e/ou ouvir o que o “protagonista” da notícia pretende que seja notícia. Por outro lado, se o jornalista domina demasiado bem os dossiers sobre os quais está a escrever, não se sentirá ele mesmo tentado em, com o decorrer do tempo, se transformar ele mesmo num político?

Não é piada. É um facto de que há a dúvida sobre se o jornalista político está ou não a fazer política quando trabalha. Se considerarmos o jornalismo como um espelho da realidade, então ele ou ela não está a fazer política. Se considerarmos o jornalismo construtor da realidade, então sim, os jornalistas políticos fazem política – de uma forma determinante quer para o que é transmitido para os cidadãos, quer, espante-se, para a própria governação. Duvida? Pois se então cada vez mais o político se adapta às linguagens dos meios de comunicação social, aos ritmos dos mesmos, está de facto a ser moldado pelos outros “políticos” - os jornalistas políticos. Poder-me-ão dizer: mas o político tem a sua ideologia e vai defender sempre os seus pontos de vista e vai, se estiver a governar, implementar medidas de acordo com essa ideologia. Pois, mas imaginemos que o político em questão é um “pragmático”. Não se guia por uma ideologia pura mas sim por aquilo que entende ter que fazer em determinado momento tendo em conta as circunstâncias (escrito assim até parece que todos são pragmáticos; e se calhar até são). Neste caso, e porque as preocupações de curto prazo podem prevalecer (a questão de se ser eleito ou não, por exemplo), o político entra inevitavelmente no “jogo” do jornalista. Por exemplo: a rapidez com que o jornalista “exige” saber atualizações de estados de alma sobre algumas figuras interfere sobre os estados de alma dessas figuras. E isto é só um exemplo, referente à rapidez. Podíamos dar o exemplo da “forma” como ele ou ela exige saber.

Qual o remédio para este diagnóstico? Embora para já a nossa portuguesa democracia não esteja, a meu ver, doente, é sempre preciso fazer a prevenção necessária para que isso não aconteça (para que ela não fique doente, quero eu dizer). Assim sendo, reescrevo: qual a melhor prevenção para que não arrisquemos doenças na nossa democracia? Fazer os possíveis para que os intermediários entre a política e o cidadão sejam, dentro do possível, super-homens e super-mulheres. Não é pedir pouco, pois não? Passo a explicar.

O jornalista tem que saber do que fala. Estar por dentro das matérias e não apenas dentro da Assembleia da República, por exemplo. Por “saber” não me refiro a saber retirar de um discurso apenas a maledicência de uns sobre outros. Isso é relativamente fácil, diga-se: basta estar atento aos “nomes” que A chamou ao B e veicular isso no seu meio de comunicação. No final do dia, se isso acontecesse, o cidadão apenas iria aprender/constatar/verificar/conhecer/saber esses “nomes” que o A chamou ao B. Não quero dizer com isto que eu não quero saber que o A chamou ao B de trapaceiro, mentiroso, sei lá mais o quê. Isto, em si, também é informação. Mas quero crer que ao final de um ou dois meses, tendo como informação (através dos media) apenas esses “nomes” todos, a minha mente não estaria muito bem frequentada em termos de pensamentos e o conhecimento que daí retiraria não seria muito recomendável.  

Dêem-me, por favor, a maledicência, sim senhor, mas também quero, se faz favor, o “resto”- o mais importante. Nomes chamados sim, mas também quero saber o que o político A pensa sobre a educação do meu país, sobre a saúde, sobre a economia, sobre o mundo, e depois o que o político B pensa sobre os mesmos temas.

É óbvio que este pedido é válido para jornalistas e políticos. Claro.

Jornalista, faz-te Estadista. Obrigado.

Nota final: Se por acaso os jornalistas estiverem a pensar formar o PdJ – Partido dos Jornalistas, há uma forte probabilidade de eu votar neles…

 


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