viver

O teu quarto

Ana Marinho da Silva 18.03.2017

Hoje cheguei tarde a casa e olhei para o teu quarto.

Sim, o quarto que é mesmo ao lado do meu, pelo qual passo diariamente e que já sei de cor o seu interior.

Olhei para o teu quarto. Não sabes, mas faço sempre isso quando chego tarde. Gosto de saber que estás lá. Gosto de ver que estás bem.

Mas hoje foi diferente. Hoje olhei e não estavas lá.

E sorri.

Nos últimos tempos percebi que choro mais pelas coisas bonitas da vida do que pelas tristezas. Não sei se isso é bom ou não, mas foge-me mais rapidamente uma lágrima com um abraço ternurento do que com qualquer coisa má que me aconteça.

A vida ensinou-me que o negativo da vida não merece as nossas lágrimas. São as coisas positivas que as merecem. E eu sou grata por poder dizer que choro muitas vezes.

Olhar para o teu quarto foi uma delas.

Lá estava ele vazio, com a cama direita, com uma camada leve de pó e um pedaço de ti. Não precisei de o observar durante muito tempo. Sei onde se encontra cada coisa. Conheço o teu quarto melhor que a palma da minha mão.

E chorei.

Percebi o quanto a vida corre. Rápido. A vida está sempre cheia de pressa.

Agora já não dormes mais naquela cama.

Agora tens outra.

Espero que seja melhor.

Estou feliz por ti e por isso choro. Aquele quarto ficará sempre connosco e terá sempre uma parte de ti.

Aquele quarto é teu e nunca poderá ser de mais ninguém.

E aquela cama estará sempre disponível para o teu regresso, mesmo que isso já não aconteça.

Como é ser uma pessoa adulta?

A vida corre mais rápido?

Não quero crescer mais. Quero continuar a chegar tarde a casa e a olhar para o teu quarto.

Quero continuar a chorar mais pelas coisas bonitas da vida.


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