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Cisne Negro

Renato Ferreira 22.03.2017

Às quartas, às quatro...um filme.

Esta semana recuperamos um texto de Raquel Felino do dia 7 de fevereiro de 2011. Na altura ela escreveu no seu blog - Residência fixa nas nuvens ou então em Sunset Boulevard... - sobre o filme Cisne Negro. 

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Leio com perplexidade que Aronofsky diz que este filme pode ser interpretado como uma sequela do The Wrestler. Pelos sacrifícios do corpo diz ele. The Wrestler não merece esta comparação. Saí do filme como quem me desse um soco no estômago. Cheguei a casa e liguei a um dos meus melhores amigos, entre lágrimas e desespero disse-lhe: "vamos todos ficar velhos, o nosso corpo vai falhar, vamos ser sombras do que somos". The Wrestler é um filme que caiu no meu goto por primar pelo realismo. Black Swan catalogo num mal conseguido surrealismo.

Mas calma, nem tudo é mau e este filme não tem nota negativa para mim. As expectativas, o Diabo das expectativas, fazem-nos ser mais duros com os nossos julgamentos. Natalie Portman está muito bem, uma performance exaustiva, vivida. Não diria o melhor papel de 2010... Mas aliado ao seu desempenho em Closer a estatueta será bem entregue. Gostei da realização, câmara ao ombro, aqui sim a lembrar The Wrestler. Rendi-me de inicio à fotografia, com um pouco mais de grão que os filmes granulados. Lindíssima. E a banda sonora, irrepreensível, quase ela própria uma personagem do filme.

E depois a desilusão. O filme tem uma premissa excelente: abordar de forma a que não estamos habituados o mundo do ballet. Mostrar o que de mais negro se passa na vida de uma bela bailarina, símbolo de perfeição e feminilidade. O argumento é fraco. E como aprendi já há alguns anos sem bons argumentos é impossível se fazerem bons filmes. O filme que pretende ser um thriller psicológico cai em cenas desnecessárias de um terror quase gore. A forma como é aproveitada a psicose de Nina cai no ridículo exagero. Até poderia não ser bem assim se as personagens fossem mais redondas, mas não o são. Mal desenvolvidas, explicadas. A própria Nina, personagem que vai dar um Óscar a Portman poderia ser bem melhor. Uma bailarina insípida, que respira demasiado alto, que cansa o espectador. E se uma sexualidade por descobrir pudesse ser aqui a questão, a teoria cai por terra pois após a cena do suposto orgasmo ela continua a dançar de forma contida.

O verdadeiro cisne negro que dever-se-ia ter revelado ao longo do filme, mostra-se nuns curtos 5 minutos de filme. O final? Non Sense. Pretende ser artístico quiçá, a morte dramática que se adivinhava, mas não é o filme já de um dramatismo gratuito para que o final tenha um pouco mais de qualidade? É apenas mais uma incoerência, a bailarina que parece seguir o destino da sua personagem Odette desde o momento em que ganha o papel mas que quase nunca o mostra. Sim, porque estou a ignorar os sinais óbvios que tiram crédito ao filme como as asas negras tatuadas nas costas de Lili, o "little princess" pelo qual é apelidada no filme do filme... Porque não exploraram melhor esta dicotomia: no fundo Nina é o cisne negro de Beth... Como comecei por dizer uma excelente premissa e um resultado tão aquém...

Clichés? Imensos. O final, a mãe ex bailarina que nunca singrou e que é controladora, a bailarina frígida que após ingerir uns copos e umas drogas torna-se de repente na menina rebelde que faz frente a todos (mas afinal isto é o Alice?), as cenas de sexo que se tornam a certo ponto furtuitas e desnecessárias.

Erros factuais, vários... O Lago dos Cines tem sempre pelo menos 2 bailarinas pois seria fisicamente impossível que uma suportasse o esforço. Uma bailarina do corpo do bailado NUNCA seria escolhida para prima ballerina até porque, primas ballerinas não são escolhidas através de audiências... A fractura exposta de Beth mostrada de forma anedótica do ponto de vista clínico... Até as próprias cenas de bailado são fraquinhas em si e salvo raras excepções não mostram nada de arrebatador do que eu esperava. Um sem fim de pequenas coisas que me fizeram abanar a cabeça durante o filme e pensar: Damn it, estão a estragar tudo.

Poderíamos pensar nisto tudo como um universo paralelo sustentado pela dupla personalidade de Nina e a sua esquizofrenia. Podíamos pensar num meta-texto. Numa metáfora dentro de outra... Como eu gostaria que assim fosse, mas nenhuma destas mais rebuscadas suposições tem pernas para andar no filme. The plot has so many flaws as Nina herself... Entristeceu-me. Por Portman e principalmente por Aronofsky.

 

Atenção! Eu gostei de ter visto o filme, principalmente para seguir a filmografia de Aronofsky e para poder formar uma opinião sobre o tão badalado filme. Compreendo porque tanta gente o tenha adorado, mas eu... Esperava muito mais e talvez daí esta crítica seja tão dura. Mas esta não é uma crítica a um qualquer filme que está no cinema. É uma crítica a um filme que está nomeado a 5 óscares e tem a média de 8,6 estrelas no IMDB. Quem estará errado, eu ou o resto do mundo que o aplaudiu? Como disse, não é um mau filme. Eu é que sou exigente com os meus padrões.

                                                     


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