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Bach to dance

Hélia Saraiva 27.03.2017

Aludo às comemorações respeitantes ao 332º ano do nascimento de Johann Sebastian Bach, apelando à revisitação de uma das suas composições da minha preferência: Variações Goldberg.  Não obstante, não discorrerei sobre a sua composição, mas à coreografia de dança contemporânea intitulada bODY_rEMIX/gOLDBERG_ vARIATIONS da autoria de Marie Chouinard.

A abordagem arrojada e original da coreógrafa sobre a interpretação da partitura bachiana será melhor apreciada se recordarmos uma das recomendações feitas pelo músico alemão: a composição fora concebida para um cravo composto por dois teclados. A indicação “antecipava” as linhas melódicas escolhidas, as texturas contrastantes dos sons e dissipava a tensão do executante ao longo dos vários cruzamentos de mãos realizados durante a interpretação, uma vez que determinou rigorosamente em qual dos teclados – superior ou inferior - deveriam ser tocadas as Variações. Curiosamente, não nos deixou instruções pormenorizadas sobre o posicionamento das mãos no respetivo teclado.

Agrada-nos pensar que a inexistência da discriminação das directrizes relativa à colocação das mãos, precocemente inclusiva, foi um interstício aproveitado por Marie Chouinard para explorar as  omissões deixadas pelo Mestre, para que as Variações fossem tocadas segundo a prodigalidade do intérprete - como o entendeu Glenn Gould -, dando-lhe liberdade para denunciar na dança os constrangimentos corporais, assim como as rotações, os gestos e os movimentos artísticos dos membros da companhia canadiana.

A leitura dançável da composição foi regida pela diversidade permitida pelos corpos, com uma forte percentagem de  ousadia e disciplina exigida aos bailarinos. Os membros dos artistas performatizam uma audaz libertação da preponderância do apoio bípede, uma vez que surgem equilibrados nas suas duas, três e por vezes quatro pontas, conseguindo estetizar criativamente o espectro da condição humana. Fazem-no recorrendo a uma apropriação de diferentes apoios inclusivos – muletas, cordas, próteses, barras horizontais, bengalas, andarilhos – que de um modo trifásico abrem veredas coreográficas oscilantes entre a libertação dos seus movimentos, o confinamento e até a formação de movimentos inesperadamente belos.

No que toca à correlação da corrente entre a libertação, o espartilhamento e a criatividade dos movimentos, sublinhamos que a mesma dimana, em grande medida, da escolha dos facilitadores  transmissores das formas corporais e das dinâmicas gésticas relacionadas com as lesões, as dores e as incapacidades sentidas pelos performers veteranos e pelo desgaste físico inerente à profissão. Deste modo, são desbravados no palco um campo seminal de  solos, pas de deux e pas de trois cujas alianças ressoam às múltiplas variações da vulnerabilidade da condição humana.

Anseio pelo próximo espetáculo desta companhia de dança. Proponho-vos, entretanto, as seguintes sugestões para uma boa despedida de março:

- a audição das Variações de Goldberg tocada por Glenn Gould: https://www.youtube.com/watch?v=Ah392lnFHxM

- a exposição designada “O mais profundo é a pele” em exibição a partir do dia 30 de março no MUDE: http://www.mude.pt/exposicoes/futuras

 

- uma visita guiada e noturna ao jardim Botânico do Porto: https://www.evensi.pt/forbidden-pleasure-a-guided-night-tour-jardim-botanico-do/204496512

 


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