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Bring back our girls

Hélia Saraiva 12.04.2017

Contar-se-á no próximo dia 14 de abril, sexta-feira santa, o terceiro ano do cativeiro das nigerianas raptadas pelo grupo Boko Haram. O silêncio em torno do insucesso do resgate das meninas Chibok, nos nossos média, recordou-me as as palavras proferidas por Chimamanda Ngozie Adichie numa conferência TED intitulada O perigo da história única. A romancista narra, ao longo da sua palestra, uma situação vivenciada pela própria decorrente de uma estadia no México. Relata-nos que detinha uma imagem estereotipada dos habitantes de Guadalajara, na decorrência da emigração de cidadãos mexicanos para os Estados Unidos, desencadeadora de uma visão unívoca transmitida pelos órgãos de comunicação social. O seu alerta para os danos desse visionamento afunilado é elucidativo na seguinte afirmação:  “O poder não reside apenas na capacidade de contar a história do outro, mas de a tornar uma história definitiva.”

A periculosidade da demonização realizada durante a transferência de poder para o “outro”, presente no momento político contemporâneo tem ecoado na literatura (pós)colonial por romancistas como Joseph Conrad, J. M. Coetzee e Nadine Gordimer. Admito o contra-argumento ligado ao facto de terem  redigido a partir de uma postura distanciada do quotidiano das minorias africanas,  situação que foi paradigmaticamente aflorada por Jorge Steiner, no ensaio  Ideia da Europa, quando transcreveu a resposta de um dos chefes do ANC respeitante à escassa violência exercida sobre intelectuais durante o apartheid: “Os cristãos têm os Evangelhos, vocês, judeus, têm o Talmude, o Antigo Testamento, o Mishnah (...) Nós, negros, não temos nenhum livro.”

A declaração evidencia o papel das narrativas grafadas nos livros como pilares socioculturais fertilizadores de histórias factuais e ficcionais,  suscetíveis de gerarem outras histórias. Salientamos que as mudanças ocorridas na última década relativas às levas de emigração africanas, às “revoluções” transmitidas pelas redes sociais, à adesão ao ciberativismo e à criação de galardões, como os prémios Wole Soyinka e Caine para a escrita africana, exponenciam a divulgação das obras redigidas por escritoras como Yvonne Adhiambo Owuor, Nnedi Okorafor, NoViolet Bulawayo, Tsitsi Dangarembga e Chimamanda Ngozi Adichie. Estas autoras afroanglófonas comungam de tendências para temáticas distintas das que foram seguidas pelos autores mencionados, decorrentes de vários fatores, entre os quais as preocupações com a segurança decorrente da pobreza e dos inúmeros ataques perpetrados pelos terroristas.  As obras das mencionadas autoras retratam as tensões existentes na sociedade  africana, não restringida às complexidades das lutas coloniais, ao combate ao domínio falocêntrico, nem aos géneros literários.

As romancistas tendem a explorar questões prismáticas como a diáspora, as migrações, as desigualdades de género, as vulnerabilidades semânticas provenientes das relações interculturais, bem como os hibridismos culturais. Estas são alguns dos temas explorados na literatura africana contemporânea, que recusa o cativeiro da ameaça fundamentalista de uma versão monolítica da história.

 

http://mobile.reuters.com/video/2017/04/09/nigerians-mark-anniversary-of-chibok-gir?videoId=371458327

 

 

Desejo-vos uma boa Páscoa!


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