viver

Beijinho por beijinho

Ana Marinho da Silva 24.06.2017

“Recebes um beijinho por cada beijinho que apanhares”

E eu lá os apanhava.

Hoje revivi uma das memórias mais queridas da minha infância. Quando ia, de mão direita dada ao meu pai e a esquerda à minha mãe, vê-los a apanhar beijinhos e eu a tentar encontra-los.

Às vezes encontrava-os aos montes. ‘Era o meu dia de sorte’, pensava eu. Quando, no fundo, eram os meus pais que os deixavam ali para eu os descobrir e sentir-me a melhor exploradora do mundo – nem um me escapava.

Hoje, voltei a apanhar beijinhos com os meus pais e apercebi-me que agora sou eu que deixo os montinhos para eles. Agora são eles que dizem “olha aqui tantos” com um sorriso no rosto.

Com o tempo compreendi que os papéis mudam. Eu deixo de depender, para eles dependerem mais. Eu deixo de cair, para evitar a queda deles. Eu deixo de chorar, para lhes evitar as lágrimas. Eu deixo de ser criança, para os deixar orgulhosos. (Mas sou criança para os fazer felizes.) Eu deixo de cair no mesmo erros, para os alertar dos perigos. Eu deixo de ser a menina que encontra os montinhos, para ser a que faz os montinhos.

Hoje fiz os possíveis para lhes mostrar que os papéis mudam, mas não mudam as memórias. Nem mudam a importância que certas pessoas têm na nossa vida. Hoje dei aos meus pais um “beijinho por cada beijinho que apanharam” e deixei a nostalgia entrar nos nossos corações naquele momento. Deixei o amor falar mais alto. Mostrei-lhes o carinho e o poder das memórias.

O que seria do mundo sem beijinhos?

O que teria sido da minha infância sem beijinhos?

O que teria sido do dia de hoje?

Que sejam sempre muitos os beijinhos. Que sejam sempre muitos os momentos como este. Que sejam sempre muitos os pais que façam montinhos de beijinhos para os seus filhos e que sejam sempre muitos os filhos que façam o mesmo aos seus pais. Que seja sempre o amor a vencer. Que seja sempre o carinho. Que seja sempre um beijinho por cada beijinho que se apanhe.


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