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Principiar 2018

Hélia Saraiva 02.01.2018

Os fogos de artifício anunciaram feérica e ribombantemente a chegada de um ano novo. Os olhares convergiram para o céu. Ouviram-se exclamações decorrentes das suas luminiscências decorrentes de elementos químicos dos quais são obtidos os sais de estrôncio, de lítio, do cloreto de cálcio, do cloreto de bário e do cloreto de cobre, cujo alcance do seu poder cromático é visível através das pinceladas coloridas lançadas num fragmento da abóbada celeste. Aquela, todavia, permanece num silêncio esfíngico duplamente cúmplice. A cumplicidade é fundamentada, em primeiro lugar, pelo acalentamento do drummondiano “cochilo” do ano novo, assim como na manutenção do sigilo das intenções existentes nos sussurros aos ouvidos dos inúmeros apaixonados; uma vez que sob o seu manto são confortavelmente acobertados inúmeros apaixonados enquanto identificam constelações e trocam juras intemporais.

Por outro lado, extraímos da sua cúmplice plasticidade elos asseguradores de aspirações estéticas e gráficas antigas. Encaramo-la como uma tela sideral, isto é, como um cenário simulacral dos nossos desejos evasionistas ingenuamente espreitados, por intermédio dos orifícios dos telescópios, levando-nos a equacionarmos tratados cosmográficos e cálculos provindos de observações galacticamente meticulosas; embora temporariamente consoladores apesar do rigor das tarefas executadas. Não obstante, a sua serena indiferença mantém-se e nós percebemos a importância e a urgência de remodelarmos os sonhos, ainda por cumprir, e confiar que os cumpriremos e edificaremos sem obsessões pretensiosamente futuristas. Percebemos que o fulgor das nossas vidas é sentido durante o encontro articulatório entre o fim e o princípio.

Soaram as doze baladas: dirigimos olhares carinhosos e reconfortantes como um abraço apertado e demorado, balbuciamos palavras, pois o ano acabou de romper, cuja chave é entendida somente por aqueles que residem no lar da sintaxe erigida termo a termo destinado a acolher aqueles que amamos, admiramos e respeitamos. 

Podemos assim afirmar que, na surpreendente era que vivemos, este ano recém germinado, bem como as declarações que dele decorrem, contêm a esperança de uma convivência desejável projetada na escrita e na lavra que em nós/vós reside e aguarda.

“Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

(Excerto da autoria de C. Drummond de Andrade)


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