viver

O Último Caderno

Renato Ferreira 06.07.2018

No dia 18 de junho de 2010, tanto quanto a minha memória me diz, eu fui a uma padaria perto de minha casa, à hora de almoço (ou pouco depois dela), tomar um café. Espreitei o Jornal de Notícias, jornal então disponível naquele estabelecimento, paguei a dose de cafeína e entrei no carro para regressar a casa. À saída do parque, na minha curva à esquerda necessária, fiquei a saber, através do rádio (não me lembro qual estação de rádio me deu a notícia), que o único Nobel da Literatura português tinha falecido.

Nunca estive presencialmente, fisicamente, cara-a-cara, com José Saramago. Isso não impediu que não me emocionasse com o facto. Se querem ainda mais pormenores: não chorei, mas senti o arrepio na espinha que sentimos quando nos emocionamos. Essa dose de emoção terá ajudado a minha memória a guardar aquele momento que agora conto. É um dos autores portugueses que mais li. E isso, penso eu, deve chegar para o estabelecimento de uma relação. Relação de características muito próprias, esta a de um escritor com os seus leitores.

Quando penso em Saramago penso também num determinado debate, salvo erro na Sic Notícias, em que ele esteve frente a frente com um representante da Igreja Católica. Esta memória, contudo, já me aparece mais apagada na minha mente daí não conseguir chegar a muitos pormenores. Ficou-me, no entanto, a sensação de vivacidade com que o Nobel português confrontava as ideias religiosas. Confronto esse que saía das suas convicções, claro está, embora também esse confronto já tivesse história: a conhecida polémica com “O evangelho segundo Jesus Cristo”.

José Saramago lançou 5 Cadernos de Lanzarote. Esta semana ficámos a saber que Pilar del Río descobriu, num dos computadores que Saramago utilizou, mais um desses Cadernos – o sexto, relativo precisamente às vivências do autor durante o ano em que recebeu o Nobel, 1998. Esse ficheiro encontrado nesse computador será publicado no próximo dia 8 de outubro. Prevejo que serei um comprador desse livro. Enquanto ele não chega, comecei a ler “Caim”. 


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