viver

Lucy, a professora

Renato Ferreira 08.07.2018

Dizem, segundo notícias recentes, que poucos (muito poucos) estudantes portugueses querem no futuro vir a ser professor ou professora. Esses poucos que querem ser até nem são os que, para já, têm melhores notas. Concordo que seja algo a ter em atenção e que pode ser preocupante a médio prazo.

Esta tarde vi, na RTP3, uma entrevista de Fareed Zakaria, da CNN, a Lucy Kellaway, uma colunista do Financial Times, que após 32 anos nessa função, decidiu ser…professora de matemática. Numa escola secundária em Londres. Após 32 anos de uma já consolidada carreira como jornalista, a filha de uma professora de Inglês e mãe de uma professora de História, aos 58 anos de vida, resolveu começar outra vez. Recomeçar.

Estes casos, acontecendo em Portugal no futuro, poderão ser outra fonte de entrada de professores na carreira de ensino. É sabido que a esperança média de vida tem aumentado. Teremos então, em condições normais, (mais) décadas de vida que podem ser dedicadas ao trabalho. Mas o que o caso de Lucy Kellaway nos vem demonstrar, e ela própria o diz, é que pode começar a não fazer sentido passar essas décadas a fazer sempre a mesma coisa. A exercer a mesma função na sociedade.

Escrevo isto não para defender a mudança de quem quer que seja. Parece ser perfeitamente possível alguém ser feliz no seu ofício uma vida inteira, se é isso que o(a) satisfaz profissionalmente. E para além do mais, quem sou eu para decidir pelos outros... Mas a história desta jornalista-agora-professora abre possibilidades. Inspira a conceber futuros dentro do futuro, por exemplo, para quem quer pensar a médio prazo em relação à sua própria vida.

Lucy Kellaway vai ter dificuldades. Vai provavelmente sofrer com esta mudança. Se calhar vai até arrepender-se e desistir. Mas quem a ouve falar nestes vídeos que aqui deixo, sente que era isto que ela tinha que fazer neste momento. Poderá parecer uma atitude “louca” vista de fora, mas quero crer que ela até nem tinha alternativa. Sentiu o impulso (se preferirem, chamamento) para tal e simplesmente teve que segui-lo. Era o que fazia sentido neste ponto da sua vida. Foi preciso coragem, certamente, para deixar a segurança do que fazia quase de olhos fechados para agora enfrentar o desconhecido – que traz sempre consigo opiniões alheias dissonantes da sua própria.

 

Venha ela a ser uma boa professora de matemática ou não, merece desde já o meu respeito e este meu texto, simplesmente pelo exemplo de construtiva (ao que parece) disrupção. Ela (a disrupção) que nem sempre é bem-vinda, mas que também acontece ser, às vezes, intrinsecamente obrigatória.

 


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