viver

Tão longe, tão perto

Duarte Pernes 15.07.2018

Não é à toa que, recorrentemente, o Brasil é referido como sendo o nosso “país irmão”. Motivos para tal não faltam. Desde logo, a sensação aconchegante de que, mesmo após mais de 9 horas de viagem de avião, se continua em casa. A língua contribui muito para isto, com certeza. Porventura, e aludindo à opinião de Miguel Sousa Tavares (um dos muitos lusitanos conquistados pelo calor brasileiro), esse será o maior vínculo que nos une àquela nação gigantesca e, em simultâneo, também a melhor herança que os portugueses deixaram por terras de Vera Cruz há séculos. Afinal, já alguém imaginou sequer uma música de Adriana Calcanhoto cantada noutra língua? E as palavras empregues por Machado de Assis, num dos seus maravilhosos poemas, teriam igual sabor se fossem escritas num idioma que não o português?

Mas há algo mais nesta estreita relação que a torna tão forte e especial: seja a hospitalidade – simples, genuína e natural – das pessoas, a sua boa disposição, as praias paradisíacas, as paisagens naturais, a diversidade cultural ou o gosto pela gastronomia. Sobre qualquer um destes aspetos poder-se-ia discorrer durante parágrafos e parágrafos, por isso proponho cingir-me ao último deles – o da boa e farta comida, claro está.  

Lá, tal como cá, o momento das refeições é para ser vivido com o máximo prazer e o maior dos apetites. A título de exemplo, no Brasil, um cachorro quente não é apenas um pão com salsicha e uma porção de batatas com alguns molhos pelo meio. Aliás, livre-se de quem apresentar a um brasileiro esfomeado este “paupérrimo” repasto! Por aquelas bandas, um cachorro quente digno de justificar a honra desse nome, deverá obrigatoriamente levar não uma, mas pelo menos duas salsichas, às quais se juntam batatas fritas, banana frita, ovo de codorniz, queijo ralado, azeitonas, entre outros ingredientes. Atípico aos nossos olhos, bem sei, mas uma coisa garanto: o resultado final desta poderosa combinação é realmente delicioso, pelo que a única dúvida que se instala quando temos pela frente semelhante iguaria é mesmo como e por onde havemos de começar a saboreá-la.

Esta é apenas uma das muitas provas que atestam as maravilhas gastronómicas que o Brasil nos traz. Ora, face aos diversos constrangimentos que representam viagens regulares até ao outro lado do Atlântico, resta procurar por aqui algo que sirva para atenuar a saudade – esse vocábulo tão português, tenha ele o sotaque que tiver. É neste ponto que entra o Dona Picanha, o novo restaurante de rodízio do Porto, onde alguns dos melhores pratos brasileiros podem ser encontrados e, sobretudo, degustados.

Localizado em plena Foz, próximo do Hotel Boa-Vista, o Dona Picanha abriu portas exatamente no dia 1 de maio deste ano. De então para cá, não se tem cansado de granjear elogios entre aqueles que visitam o seu moderno e aprazível espaço. Justificadamente, diga-se em abono da verdade.

À espera dos clientes está um menu irresistível, onde se destaca o incontornável rodízio (a minha escolha para prato principal). Antes, porém, como entrada, é altamente recomendável a prova de uns pãezinhos de queijo (receita brasileira típica, oriunda do estado de Minas Gerais) e de uma caipirinha servida a rigor.

Feito o introito, passemos então ao rodízio, providenciado como manda a lei. Ou seja, variado e delicioso, com filet de queijo e salsicha toscana a marcarem a abertura para, em seguida, darem lugar à maminha, à alcatra, ao cupim, à picanha ou à costela de frango. Tudo devidamente acompanhado, claro está, pelo feijão preto e pela farofa. A fechar, com o objetivo de cortar o intenso paladar deixado, é servida uma fatia de abacaxi salpicada com um pouco de canela. E não, não se tratou da sobremesa porque para essa já não houve espaço na barriga. O abacaxi é, de facto, parte integrante deste verdadeiro sortido de sabores.

Resta só acrescentar que o atendimento no Dona Picanha está à altura da qualidade da refeição, mesclando a simpatia lusa com a familiaridade brasileira. Tudo num ambiente descontraído, mas calmo e propício ao relaxe. Garantido está também o preenchimento pleno do estômago. Nada que, no entanto, uma caminhada tranquila pelo Passeio Alegre, ali ao lado, não ajude a aliviar logo a seguir.

Obrigado, Brasil. Obrigado, Portugal.

 

Informações gerais:

Nome: Dona Picanha.

Especialidade: Rodízio.

Localização: R. do Padre Luís Cabral 1086, 4150-096 Porto

Horário de funcionamento: 12:30 – 15:00 e 19:30 – 23:00. Encerra segunda-feira durante todo o dia e domingo ao jantar.

Website: https://donapicanha.pt/  


Relacionados

Fogos cruzados

No Brasil, Dilma Rousseff promete lutar até ao fim, para evitar o 'impeachment'. Em...

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   12.05.2016

Samba imprevisível

Um professor de Ciência Política revelava, há dias, numa entrevista, a sua...

Ver vídeo Ricardo Jorge Pinto   12.05.2016

Comentários

Não existem comentários ainda. Porque não ser o primeiro?

Novo comentário